Sr Skin e dr Malaquias

O senhor Skin era um doce de pessoa.
Certamente é a pessoa mais admirada e amada do Condado.
Ele nasceu ali, foi criado pelos fundadores do Condado, seus pais.
E sempre foi uma criança doce, obediente.
Ele cresceu, se tornou um jovem muito atlético e também estudioso.
Uma pessoa preocupada com as questões sociais, em agradar o próximo,
Um ser humano dedicado a entender diferentes culturas e a respeitar as divergências também. Conversava desejando entender o outro e não convencê-lo.
Sempre uma pessoa muito boa. Aquele tipo que nunca chegou atrasado no trabalho, nunca inventou doença para faltar.  Aliás é sempre muito saudável porque se alimenta bem em obediência aos ensinamentos da sua mãe.
Ele era um cara realmente incrível.
Casou, teve filhos e filhas, foi bom pai, bom esposo.
Era legal com amigos e amigas.
Temente a Deus, respeitava também os ateus.
O senhor Skin era uma pessoa maravilhosa e querida. Mesmo nos temas espinhosos.
Aliás, ele sempre debatia política, futebol e religião, se envolvendo em polêmicas milenares. Porém sua posição frente às polêmicas era tão respeitosa com os adversários que ele invariavelmente passava a ser admirado pelos outros debatedores. E muitas vezes estes voluntariamente mudavam as suas posições para agradar o amado senhor Skin.
Era um rapaz que posteriormente, já na velhice, viria a surpreender a todos com um fato muito interessante.
Bem, todos nós sabemos que mesmo pessoas tão boas quanto o senhor Skin não estão imunes às perseguições, injustiças, calúnias, invejas ou outra opressão qualquer... Tal como ter alguém no seu pé, sabe, aquela pedra no sapato que atrapalha, que nos dá trabalho para nos defender de coisas que não precisaríamos estar nos defendendo, porque não temos culpa.
De qualquer forma o senhor Skin, graças a sua serenidade, a sua forma de viver, sempre levou muito bem essas coisas.
Acontece que no Condado, todas as pessoas, em algum momento da vida, tinham errado. Mas o senhor Skin não. E isto levantava suspeitas na cabeça do jovem delegado. Irmão gêmeo do senhor  Skin. O doutor Malaquias.
Este delegado passou a perceber que as pessoas que cometiam delitos faziam de tudo para esconder suas culpas e portanto eram as menos suspeitas.
E conforme foi investigando acabou descobrindo que muitas pessoas que agiam como Skin ou que tentavam imitá-lo ou eram assim de maneira natural acabavam por enganar a polícia e não se tornavam suspeitos dos seus próprios crimes. Pelo menos por algum tempo, até que o infalível doutor Malaquias os desmascarava.
Sendo assim, desmascarando os criminosos através de perseguições e escutas e intimações, delações premiadas, o senhor delegado o dr Malaquias resolveu que iria investigar o Skin, porque não é possível que uma pessoa tão boa não tenha cometido um deslize sequer. Pelo menos um. Mesmo que não fosse para prendê-lo, pelo menos um para poder desmascará-lo.
Era um desafio fabuloso para o senhor delegado que já havia desmascarado todas as pessoas. Isto seria um feito de proposições e repercução Mundial, se o Condado não fosse tão ridiculamente pequeno e insignificante.
A longa ficha de serviços prestados do doutor Malaquias ia desde a dona Maricota que enfim tinha roubado uma rosa da roseira da vizinha porque estava mais bonita para enxertar clandestinamente no seu próprio jardim, ao trocador do ônibus Ariovaldo que ficou com 5 centavos da velhinha que já estava ficando cega, mas fingindo que não, se negava a usar óculos.
Sendo assim a última pessoa que faltava para o doutor Malaquias desmascarar era o senhor Skin. E já na juventude deste ele começou a botar arapongas, escutas, tocaias e seguir o sr Skin, que rapidamente percebeu. Claro né, alguém o dia inteiro atras de você, acaba percebendo, especialmente no Condado, que é um lugar muito (como já dito) pequeno.
Ele percebeu, mas como não faz nada de errado, não se importou. Só que esta perseguição durou anos, porque o senhor delegado o doutor Malaquias não dava o braço a torcer. Sua teoria era infalível e seus métodos imbatíveis.
Depois de dois anos, o seu subalterno questionou:
_ Senhor delegado, vamos continuar perseguindo? Gastamos muitos equipamentos e pessoal, recursos preciosos para pegar o indivíduo, mas parece que o senhor Skin realmente é uma pessoa boa. Ué, existe isso. Existem algumas pessoas más, outras que são boas. Então, pode acontecer de, por que não?, o senhor Skin ser uma pessoa boa.
_ Não, não é possível. Mesmo as pessoas boas cometem erros. Ou tem brio, amor próprio ou se zangam em algum momento. E Skinny  nunca se aborrece, não é possível. Dois anos é muito pouco. Vamos continuar seguindo porque ainda é jovem, talvez na velhice... Veremos. Talvez no ambiente de trabalho... Veremos...
Sendo assim, mantiveram-se os aparatos investigativos, que se por um lado eram os menores do Mundo em termos absolutos eram ao mesmo tempo os maiores do Mundo em termos relativos, considerando o tamanho da população local, principalmente se notarmos que em certa altura da vida todo este aparato ficou dedicado a investigar uma única pessoa.
O senhor Skin, a despeito de tudo isso, acabou a faculdade, arranjou trabalho, casou, teve filhos, foi um bom pai, como já dissemos. Mas nada acontecia, de acordo com doutor Malaquias.
Depois de 10 anos, realmente ficava estranho manter a perseguição, e portanto o senhor delegado resolveu pesquisar seu suspeito uma semana por mês. Passados mais dez anos, isto é no vigésimo ano de investigação, passou a segui-lo um mês por ano, mais dez anos... Depois um dia por mês... Mais anos e anos...
Até que um dia, aos 83 anos o delegado resolveu dar o braço a torcer, ligou para a sua equipe, suspendeu a perseguição, desligou as escutas e todo o sistema de vigilância. Eram 18h, então como se não houvesse mais nada que pudesse fazer, resolveu ver o pôr-do-sol na montanha e refletir sobre a sua vida.
Voltando para casa, já tinha escurecido, eram umas oito horas da noite, seguia tão intrigado com seus pensamentos que quase passa de sua própria casa, tamanha a distração. Assim que chega a sua própria porta, o dr Malaquias fica muito feliz, com uma nova perspectiva: por ter descoberto que realmente existe bondade no Mundo, seu erro pelo menos havia provado que havia uma pessoa boa no Mundo. Sua vida não foi desperdiçada, ainda que por linhas tortas. Se sua teoria infalível e seus métodos imbatíveis não provaram o que queriam, pelo menos tinham o mérito de inquestionavelmente provar o contrário.
E cheio de alegria e de si mesmo, felizmente abriu a porta de casa, deixou seus pertences no móvel, tirou as roupas, entrou no banho e se deixou levar por seus próprios pensamentos, enquanto a água quente do chuveiro se encarregava de levar o resto.
De repente, notou uma sombra crescendo sobre a cortina do banheiro, abriu-a e viu com uma faca na mão o amável senhor Skin.

Chorar


A sala estava tomada de silêncio, ouvíamos apenas o respirar das pessoas, o ar condicionado e uma moto com o som muito abafado passando lá fora.
Uma mulher falou 'alô' muito baixinho.
Depois de uns segundos começou a chorar.
Ela chora, chora, chora,
A tristeza parece aumentar
Então soluça.
Eu olho para ela, que está de cabeça baixa com as mãos nos olhos e
A dor aumenta.
Ela diz não.
E desaba a chorar. Chorar.
Chorar.
Eu.
Eu lembro do dia em que nos encontramos pela primeira vez:
Depois de uma breve caminhada, sentamos na Beira-mar e ficamos olhando não sei o quê.
Você viu dois cachorros na areia da praia correndo atrás das sombras das gaivotas.
Eu ri,
Você preferiu lacrimejar e me avisou: eu choro à toa.
Eu não.

Mas aquela mulher na sala não chorava à toa, e
eu chorei também.

a Noite

Morre o azul,
um sonho, uma criança:
Deus não chora.


Morre mais um,



Deus
  não escreve;
não canta poesia;
  ou compõe uma canção.
Ele nunca fez uma oração.



Posso ser só
                      por ti
vou até o pó
Contigo
chega a meia noite,
cega-me o calor da lua
e acordo.

Como o meio dia, não durmo,

minha noite
é você.

Deus aos doze

Quando era criança, desejava ser transparente, 
mas não como um super poder de um super-herói, 
pelo contrário: a transparência me deixaria frágil.
Revelaria algo escondido aqui dentro, que mesmo eu não conseguia ver. E sentia,
no peito, na boca do estômago, nos joelhos e no fundo dos olhos, algo comichando.
Já tinha a consciência de que algo em mim era subterrâneo,
profundamente escondido na cafurna
que deus havia escavado
na menor alma que havia encontrado naquele dia.

Depois de uns anos, passei a achar que meus segredos eram para ser guardados,
E que na verdade não eram meus, eram pecados de Deus que ele escondia em nós;
quando pareciam vir à tona, 
reprimia, 
queria escondê-los,
e uma enorme solidão tomava conta.

Até que uma bailarina olhou através de mim,
depois me deu seus segredos. 
E então meu primeiro beijo,
junto veio um bilhetinho que dizia assim “Oma et ue”.
Mas não entendi, 
ela sussurrou: eu te amo.
Roubou minhas confidências e meus segredos
deixavam de ser.
Porém Deus vinha aos domingos e guardava novos.
Passei a crer que O segredo faz parte de mim 
e que contá-lo não era simplesmente revelar-me, 
era transcender-me.

Sobre esquecer

Eu a vi na rua.

Você sabe.

Nos falamos, por uns

segundos cordiais,

fiquei com meu sorriso nos olhos,

você pareceu muito feliz em me ver

também.

Estávamos indo em sentidos contrários,

e paramos no meio da faixa de pedestres,

 a multidão passava, incomodava-se

com nosso abraço.

Nosso primeiro abraço em anos,

talvez o último.

Você encontrou tempo para dizer que eu estava bem,

em vez de perguntar.

Depois fez questão de perguntar, só

para sentir meu constrangimento por não estar nada bem.

Não naquele momento.

Minha vida seguia tranquila,

mas encontrar você

me impôs sofrer de novo a nossa...
Separação. Rói aqui, ó.

Estava tão feliz em vê-la,

que quando vi já estava pegando em sua mão para conduzir à calçada.

Você,

se estiver lendo,

agora está dizendo que sou incoerente: _ Ficou feliz ou sofreu?; ou que não fez questão de perguntar nada; ou que não nos abraçamos; ou que sequer se lembra;

ou que não faz sentido nada disso.

E não faz mesmo.
(e ainda assim sabe que é do nosso encontro que estou falando)
Somente lembro

que na calçada eu disse Oi, de novo, e você riu.

Sabe que nunca tenho algo a dizer.

Completou mentalmente: _ Acabou o assunto.

Foi assim que começamos a namorar,

A vi caminhando na orla do Gragoatá,
lembra?
 vi,  vi,   vi,    vi,

e você passou por mim como se eu fosse invisível, (e era mesmo)

fiquei congelado, não disse nada. E

de súbito saí correndo atrás de você,

deixei minha amiga falando sozinha,

quando alcancei seu passo, acertei

meu andar com o seu,

percebi que estava sem sutiã, com aquela blusa

de alcinha amarela,

e toquei no seu ombro.

Você se virou,

as pintas do seu colo desenhavam uma constelação.

E eu disse Oi.

Você disse Oi.

E calei, (você é tão linda),

você me olhava
e sorria,

(Não, não me olhava assim,

e não, não sorria para mim,

só esperava que dissesse algo)

eu pensava em nada para dizer,

com medo de qualquer coisa.

Um

segundo, dois

segundos, três.

Tanto silêncio que se podia ouvir o bocejo da minha alma recém descoberta,

observei os fios de cabelo que desciam para frente dos seus olhos,

fiz o gesto de levar as mãos a seu rosto, por instinto,

mas você se espantou um pouco,

recuou um centímetro e disse:

_ Pode falar.

E

finalmente

falei:

_ Acabou meu assunto.

E você sorriu...
(para mim!)

Vento

Minha alma vermelha, perdida, é uma ilha
tingida com sangue que brota na despedida;
luciluz com a pulsação de uma filha
roubada por uma floresta bandida.

Nos achados e perdidos do tempo,
sonha com o umbilical momento
quando qualquer desalento
desfazia-se num breve...

Velho


Já havia desistido de buscar conforto nas   memórias   da infância,
ao contrário, deixei-me esvaziar.                                             E
                                   quando 
              abri                       de novo                            
                                                            os olhos,
                                                                  repleto de anos...
o mundo que temi                                  já não existia mais,




                                                                                              
   ...nem eu.                 .

Não cabe no dicionário


Inventei sua voz,
Para ouvir você me dizer: "eu te..."
(Ouso amar)
Outro dia sonhei que não havia desencontro. E meu travesseiro sentia
seu cheiro, que imagino ser de chuva, algodão e pirilampos.
Mas não lhe sonho perfeito, amo sua
voz que sussurra arrepios, nuvens e éter. Mas
no meu sonho você nunca fica.
Na minha vida, nunca vem.

E vida passa,
Ando na praia,
Conto o tempo pelas estantes que vou enchendo de livros,
enquanto aguardo. Cada romance me povoa.
Preenche qualquer coisa que eu não sabia
Que havia em mim.
Mudo de profissão,
Abro um negócio,
Vejo um filme,
E me lembro de você
Que só existe em mim.
Mas
e se um dia você tocar a campainha?
Vem a onda e afundo meus pés na areia molhada. Percebo o quanto está fria, penso que posso ficar resfriada amanhã, e acho que vale a pena. Quando a onda recua, afundo mais um pouquinho. E me lembro de que quando criança ficava paradinha, nessa posição para ver se a areia fina conseguia me engolir,                 enquanto a onda escorria de volta para o mar.
Mais um sonho.
E nasce mais um dia
                        sem você.
Mais saudade,

Outro dia da janela da minha casa,
vi um barco passando fazendo tectectec, na estrada lunar, eu
soltava minha fumaça branca.
Como um índio-americano de desenho animado,
lhe mandei uma mensagem:
_ quero costurar sua sombra em mim.
Sigo lhe imaginando, mãos de terra, barba áspera e beijos de mar, a espalhar sua espuma em mim.
Cato conchas, como testemunhas de que nesse dia soube amar.

Sei que vou reconhecê-lo, ainda que com outra voz ou outro cheiro.
Outras mãos,
e mais que beijos.
Joga areia da praia sob meus pés, para me lembrar da primeira vez que vi o mar. Caminhamos juntos,
conversamos sobre Shakespeare, Gramsci, Monty Python e Arnaldo Antunes como quem fala do tempo, do tráfego, ou do mormaço que não me deixa pensar. Do dia em que rimos das piadas de meu pai.
Sinto saudade de todos esses sonhos. Sinto tantas saudades suas.
Pena você não existir,
um ser feito de sombras, sonhos e saudades. Não cabe no dicionário
Por isso,
vou lhe chamar:

_ Sonhades,




Vagalume

Vaga  na rua  lume,
no meu peito breu seja raio,
mas não, inútil cambaio
em toda atmosfera cintila,
e nem a si mesmo ilumina.

Brinca de fadinha,
faúlha, não farol.
Para quê brilha fraca frente ao sol?

Faz de conta que é estrela
de guardar entre as mãos...
Porém
se não mostra a vereda,
para quem lampeja então?

Vaga  em mim  lume
anos-luz,
na escuridão, a noite seduz,

se é em vão,
no universo, todos são.

Rói minha solitude,

meu negrume
vaga  em sua  lume.

Lancinante

ria e chorava de quando em quando com o contorcer das lembranças e ia por aí caçando passados passando retorcida por dentro por avesso por aquilo que sobrou lancinante de mim

Acentuação Gráfica

assembleia, colmeia, Coreia, dispneico, estreia, ideia, europeia, plateia
alcaloide, apoio (verbo), asteroide, boia, heroico, jiboia, joia, paranoico


O errado agora é certo.
Estou me sentindo meio alcaloide
com a descoberta de que o calendário inca, o tsunami, a reforma ortográfica e minha vida tem alguma ligação,
sim.
Por que não?
Não estamos todos meio radioativos ultimamente?
(eu até vi a Globo dizer que as usinas do Brasil são mais avançadas do que as do Japão.)
Obama veio fazer marketing à nossa custa, quem diria,
pousar ao lado de "comunista" dá voto, quem diria de novo.
Que país é esse?
Dilma's adventures in Wonderland.





dor mente dormente

Agredida, humilhada e desconhecida, sensivelmente desconhecida, essa moça, mulher anônima, é chamada de minha, gostosa, puta.

Diz cenário.

.sucinto.
Acepções
:
conciso,
brisa,
curto,
compresso,
comprimido,
sintético,
espaço,
síntese,
rápido,
veloz,
susto,
queda,

a vida,                                                                          sabão),
(é bolinha de________
suspiro,
piscada,
parêntese,
econômico,
essencial,
limitado,
ira,
ágil,
asas,
amor,
chama,
lacônico,
memória,
resumido,
bilhete,
baixo,
nota,
fino,
frágil,
eco,
bola,
volátil,
efêmero,
brigadeiro,
vírgula,
vontade,
salto,
estar,
arrepio,
breve,
pulo,
paixão,
suicídio.
ponto,
um
conto.

Caminho

_ Então, você se perdeu de novo?
_ É, me perdi de novo.
_ É incrível, sempre se perde. Como você consegue se perder tão fácil?
_ Ora, é muito fácil, difícil é encontrar. Porque para acertar só tem um caminho, e para se perder tem todos os outros.

e disse Eu

Tudo Há de Ser Lindo

"And so it is"

...Repousa o cansaço, a solidão, a espera, o tédio, a saudade do tempo. Sozinho, evito os momentos em que posso me descobrir só. Não sei se a vida que criei para mim me satisfaz, ou melhor, nesses momentos descubro que não. Chega a consciência da mediocridade, da insignificante vida a que me apego... O que me salvaria?, uma poesia, um abrigo antiaério, um beijo..


(01/02/2006)

Deus aos sete


Meu pai me conta uma história fantástica.
E eu quase me lembro dela, de tantas vezes que ouvi. Foi em 1981. Meus pais tinham o hábito de passar o dia na Lagoa de Maricá. Deve fazer quase vinte anos que eu não vou lá, mas o vento, a grama e o infinito das águas rasas marcaram a minha memória. Naquele dia tudo estava igual a todos os outros dias, meu pai lia a bíblia, até que o tempo mudou bruscamente.

Minha mãe veio correndo, parecia que tinha visto um fantasma, ou que ela própria era um. Mal conseguia falar, meu pai a acalmou, e quando finalmente ela conseguiu falar, quem ficou nervoso foi ele.
_ Que isso, Pilar!?, eu tenho que tirar o corpo do homem da água?! De onde você tirou isso?! Nós não temos nada a ver com isso! Logo, eu?, que idéia!, arrastar o corpo de um homem que sequer conheço.
_ Mas, meu bem, a mulher dele está desesperada e ninguém ajuda.
_ Se ninguém ajuda, não deve ser à toa, devem estar esperando os bombeiros, é melhor deixar como está.
_ Ora, e se fosse você, e eu estivesse desesperada, você gostaria que não fizessem nada?
_ Em primeiro lugar, se fosse eu, nunca me afogaria num lugar onde a água não passa da cintura, isso está muito suspeito.
_ Ai, deixa de ser insensível, você sabe que não é o primeiro caso de afogamento aqui.
_ Amor, e por acaso nos outros casos eu fui buscar algum corpo na água?!
_ Poxa, as crianças estão desesperadas, ficam gritando pelo pai.

Foi nesse momento que ele ouviu uma voz: Vai na água.
_ Está bem, Pilar, eu vou. - Fechou a bíblia, andou até a pequena multidão e encontrou a mulher chorando, e disse
_ Se acalme, cuide dos seus filhos, eu vou buscar o corpo do seu marido.

Isso que dá ser casado e ter hábitos estranhos. Tem uma escritura em latim que diz “um abismo atrai o outro”, nessa história uma estranheza atrai outra.

Enquanto andava pela água, ele orava, perguntava a Deus,
_ Oque eu estou fazendo aqui, cruzes!? - Não era uma oração com sábias palavras, mas era extremamente humana. Às vezes, eu penso nesse mundo, e pergunto a mesma coisa: O que vim fazer aqui?

Enquanto não tinha a resposta continuava a andar, como quem um dia vai pisar na linha do horizonte, com paciência e determinação.
_ Ai, meu Deus, o Senhor tem muita certeza de que isso é uma boa idéia, né? - Olhou para trás e viu as pessoas pequeninas, na praia.
Já devia ter andado muito tempo, o sol estava forte de novo, e nenhum sinal do homem que resolveu morrer na hora mais imprópria. Isso era definitivamente a prova mais cabal de que no plano de Deus não estão todas as mortes. Que morte mais sem jeito.

Ouviu a voz: Olhe para sua direita. - Ele olhou, e viu, havia um corpo virado de cara para água,
_ E agora?
_ Leve até a mulher dele. Ô voz mandona.
Pegou-o pelo braço, e começou a arrastá-lo na água. Podia ver que ele estava muito inchado, já devia estar na água há algumas horas. O corpo morto na mão fez a viagem de volta ser mais longa ainda. Entre o nojo, ânsias de vômito e a perplexidade de ver um corpo em tão mal estado, meu pai tinha tempo de perguntar:
_ Por quê?!
Mas acho que Deus não tinha tempo entre uma coisa e outra para responder. Aliás, “por que?” deve ser que Deus mais odeia. Deve se vingar de nós estimulando as crianças na fase do porque.

Nada da praia chegar. Por uns minutos duvidou de que a praia realmente existisse. Sabia que as únicas coisas reais eram ele, o corpo e o senso de humor de Deus. Quando chegou mais perto da praia, um grupo de pessoas veio para dentro da água ajudar, quase sem forças a mulher viúva achava que corria. Ainda sem entender o propósito daquilo tudo, falou duas palavras para mulher, e passou pelo meio do povo, olhou as pessoas olhando o morto.

A barriga do homem morto parecia começar no pescoço, e nunca terminar. Definitivamente a morte havia encontrado a sua cara. O Ceifeiro Implacável parecia um Pastor de Ovelhas perto daquela imagem, que até hoje não sai da memória. Aquilo foi pura ânsia, um nó na boca do estômago, se ver sobre as águas, ver aquilo que um dia todos seremos: um corpo morto, sem propósito.

_ Volte lá!, disse a voz.
_ Como?! - Será que o despropósito não carrega também em si o seu fim?
_ É chegada a hora.
_ Hora de quê? Para aquele homem a hora já passou.
_ Mas para Mim a hora Me pertence.
_ Mas eu já fiz uma parte, não pode pedir a outro? Tudo eu, tudo eu. - Meu pai sentiu a espinha gelar, e por um segundo achou que sua espinha era do morto.
_ Está bem, se o Senhor diz.
Andou de volta, resignado, ficou frente àquilo que seria o seu fim, aliás o fim de todos nós. E disse, olhando para o morto:
_ E agora?

_ Toque na barriga dele.
_ Senhor!, Você está brincando, só pode.
_ Toque na barriga dele.
_ Eu vou fazer isso, só porque o Senhor é gente boa, e é quem É, e está mandando. Porque a última coisa que eu quero é tocar nesse homem morto de novo.
_ Toque, e verá quem tem lhe falado essas coisas.
_ Se é para isso, não carece, não! Eu nunca duvidei que fosse o Senhor, o tempo todinho a me falar para fazer essas coisas.
_ Toque!
Estendeu a sua mão, disse a viúva que se afastasse, e ao povo que a amparasse. Colocou a sua mão sobre a barriga do homem morto.

O homem começou a colocar para fora da boca, muita água, e tudo aquilo que havia comido, ninguém sabia que cabia tantas coisas assim em uma pessoa. A barriga estava quase normal, quando o homem começou a se mexer, e a tossir. Logo, as pessoas chegaram mais perto e ajudam o ressurreto a andar até a praia, onde seus filhos receberam o pai de volta.

O meu pai também voltou para mim. Voltou-se para minha mãe.
_ Vamos embora!
_ Por que?
_ Não me pergunte nada, vamos, fiz o que você me pediu, a família já tem o homem de volta, temos que sair daqui, antes que venham até nós.
Fomos. Fugimos como se tivéssemos matado alguém


Em casa, meu irmão ouviu a história com um misto de fascínio, fé e admiração.
Mal podia ser real a história, mas criança em tudo crê, principalmente no Pai e no pai falando do Pai. Dias depois meu irmão chegou em casa, ofegante, gritou:
_ Pai, pai, pai!!!
_ Que foi, meu filho?! - A criança então mostrou entre suas mãos havia um pássaro morto.
_ Aqui, pai, ressuscita ele.

Isso que dá, criança em tudo crê.
_ Que isso!? Ficou louco?! Como assim, ressuscitar? De onde você tirou essa idéia?
_ Ora, você contou que ressuscitou o homem morto, um passarinho deve ser mais fácil.
(Ai, meus Deus, isso aqui parece mais difícil, e agora?)
_ Meu filho, não fui eu quem fez o milagre, foi Deus.
_ Então, fala com Ele.
(Meu Deus, já não bastava o homem morto, agora vem essa criança com um bicho, quando isso vai parar? Dê um jeito.)
E meu irmão insistindo, :
_ Pai? Pai, cadê? Faz o negócio logo!

_ Christiano, me dê aqui a andorinha. Olha para ela, você acha que ela está sofrendo agora?
_ Não, claro, acho que não.
_ Pois bem, como ela morreu?
_ Eu não sei.
_ Você não sabe?
_ Não, ela deve ter levado uma pedrada.
_ Então, ela levou uma pedrada. Uma pedrada. Você quer que ela leve outra e sofra de novo?
_ Não.
_ Deixa-a descansar.
_ Então, não vamos pedir a Deus para ressuscitá-la.
_ Está bem, boa ideia, é melhor assim.


(04/09/03)

Acho que

perdi a vergonha do fracasso

Amantes

tem gente que não gosta de um romance,
eu adoro!

Anormal

Não vale a pena ser normal.

Fudeu

não estranhe,
no amor golpe baixo é a regra.

Tente

Tentar entender as pessoas é engraçado.
Conseguir é triste.

Brilhante

_ você é brilhante como uma amante cheia de diamantes.
_ e você é brilhante como um diamante cheio de amantes.

Violenta

eu tenho uma alma violenta
que vive atacando pedras e cores
no telhado de Deus.

Fato

_ Eu sempre quis ter uma amiga assim, como você.
_ Como eu como? Assim esquisita? Ou absurda?
_ Imaginária.

Opinião:

Eu finjo que minha opinião tem importância.

...

e quero caminhar como um espírito livre,
e sofro com medo da eternidade,
mas um dia eu vou acordar e o mundo não estará lá.

ano 1986, Parte XII

Acordei com 83. E ranzinza. Odeio ser acordada cedo. Minha mãe tem a incrível capacidade de acordar às 4h30 da manhã, todo santo dia. Às 6h30h já fez todo o serviço de casa. Pra quê essa pressa toda!? Bem, dessa vez foi para me acordar para a gente aproveitar o dia. Ora, eu gosto de aproveitar o dia... Dormindo! Mas não, ela quer que eu conheça as mudanças da cidade onde cresci. O mercado municipal restaurado, a estação restaurada, a igreja restaurada, o casarão restaurado... Isto é, tudo velho pintado.
Mas no fim das contas foi bom porque minha amiga chegou logo depois e eu teria que levantar de qualquer forma. Ela chegou com a filha, sem o marido, mau sinal. Eu já não a encontrava há muito tempo. Há... 10 anos? Gente, foi tudo isso mesmo? 10 anos!? É... Desde o nascimento da filha dela. Quer dizer, desde o batizado, eu fui madrinha! Devo ser uma péssima madrinha mesmo. Acho que minha mãe tem razão, eu deveria vir mais vezes.
Estava na cozinha preparando o café-da-manhã do espoletinha, quando minha mãe foi buscá-las na porta. Poucos segundos se passaram até que voltou com as duas pelas mãos.
_ Ooi! Linda! Que saudade de você!
_ Ahhh, meu amor! Que saudade!
E nos demos um daqueles abraços bem apertados, constrangedoramente longo pra quem está em volta, estranhamente íntimo pra que está envolto.
_ E aí? Como você está?
_ Estou com dois filhos, um deles endiabrado, o mais novo - Acho que fiz aquela cara de mãe em fim de festa infantil, ela riu em solidariedade. E você, amiga?
_ Eu estou com uma menina, mosca morta, e dois meninos. E – sussurrou pra mim – sem marido.
A menininha abaixou os olhos, a minha amiga claramente não tinha ideia dos traumas que ia causar naquela criança. E completou em alto e bom som:
_ Essa menina não faz nada, só fica parada no canto, olhando pras coisas, lendo... Nas festas não brinca normalmente com as outras crianças, no máximo organiza as brincadeiras, distribui os papéis entre cada criança, explica as regras e se aborrece quando uma não faz do jeito que ela quer. É uma mosca morta mesmo, não foi a mim que ela puxou.
_ Eu acho que é uma princesa. - Falei olhando para ela - Uma menininha linda e muito inteligente assim não é para ficar rolando no chão, talvez ela consiga ensinar modos ao meu filho, que parece um bichinho do mato, ou palhaço de circo, mas é muito inteligente e divertido também, e adora livros.
Aí minha mãe resolveu entrar na conversa.
_ O que esse menininho precisa é de umas boas palmadinhas para ficar sossegadinho. Daqui a pouco ele acorda, aí acabou a nossa paz. Ele é o príncipe mesmo, faz tudo que quer e me deixa louquinha louquinha. Ah seu eu pego ele, endireito num instantinho.
Aí a leonina tomou conta de mim:
_ Mãe! Se você encostar no meu filho, eu nunca mais piso aqui.
Fui tão grossa, desproporcionalmente estúpida, que minha amiga ficou constrangida e pediu licença para ir tomar banho, deixando a menina comigo e minha mãe, que fez cara de ofendida e saiu sem dizer nada. Probleminha dela.
Ela, a mosca morta, estava com os olhos baixos, como se tivesse encarando um vão sob seus pés. Tadinha - por um segundo achei que ela fosse enterrar a cara no chão. E segurei sua mão com carinho.
_ Sabe o quê que é? Não posso ver nenhuma menina ou menino tristes. Eu defendo as crianças com toda força, igual uma leoa quando vê seus filhotinhos ameaçados. Se você quiser posso te defender também, para ninguém te fazer mal ou machucar você. Eu não vou deixar ninguém incomodar uma princesinha como você...
Ela olhou para mim e sorriu, tão desamparada. Eu me vi naquela criança, essa é a verdade.
_ Seu filho realmente é um príncipe, faz tudo que quer?
_ Você já leu o Pequeno Príncipe?
_ Já li, era o livro que eu mais gostava.
_ Era? O que houve? Não gosta mais?
_ Gosto sim, muito. Mas estou lendo Peter Pan... Aí agora estou em dúvidas de qual é o meu predileto.
(Predileto? Uma criança de 10 anos que fala predileto. Ela é estranha mesmo.)
_ Ah, o Peter Pan... Escolha difícil mesmo. Eu tenho sorte porque tenho os dois.
_ Ninguém tem o Peter Pan, nem o Pequeno Príncipe...
_ Assim como ninguém tem uma princesinha, mas eu estou olhando para uma.
_ Eu não sou uma princesinha, sou uma mosca morta. Não sirvo pra nada.
_ Às vezes, quando a gente é uma menina, não sabemos tudo que somos. Muita coisa fica escondida, desde que éramos bebezinhos, depois conforme a gente vai crescendo essas coisas vão se revelando... Mas no fundo a gente sente alguma coisa dizendo que somos especiais, não é? - Seus olhinhos brilharam.
_ Hum... Igual à Cinderela? Ela era maltratada pelas irmãs, não sabia que seria uma rainha um dia...
_ Igualzinho. Às vezes, também, alguém olha pra gente e entende tudo que está acontecendo com a gente e vem ajudar, igual à fada madrinha. É porque as madrinhas sabem que a gente tem um coração muito bom.
_ Eu vejo que você tem um bom coração. - Ela falou isso com tanta pureza e esperança, que quase chorei num cantinho. E é minha madrinha.
_ Eu te olho e sei que você é muito especial, uma princesinha de verdade, que um dia vai achar seu castelo e seu príncipe encantado. - Enfim ela sorriu, igual criança.
_ Seu filho não é realmente um príncipe, é?
_ Ele é um príncipe extraordinário. Por dentro ele tem o coração do Pequeno Príncipe, mas ainda não sabe disso. É bagunceiro e agitado igual ao Peter Pan. Sabe por quê?
_ Por quê?! - Ela verdadeiramente queria saber.
_ Porque não tem nenhuma princesa para acompanhá-lo nas aventuras e ensiná-lo a se comportar como um príncipe de verdade. - Seu rosto afogueou, ficou da cor da pitanga. Abaixou a cabeça e começou a rir.
Eu ri também, mas mudei de assunto porque, só com a ideia, ela já estava envergonhada. Perguntei se estava com fome, ela consentiu com a cabeça. Comecei a preparar o café da manhã, enquanto perguntava sobre ela, botei o pão e o achocolatado na mesa. E me sentei.
_ É o café da manhã preferido dele.
Ela estava faminta, mas, muito educada, não havia pedido nada. Ela não queria mudar de assunto, queria saber mais e mais sobre ele. Só quando perguntou o nome dele que a ficha caiu e percebi que os nomes dos dois eram palíndromos.
_ Você sabe o que é um palíndromo?
_ É aquele bicho assim? - aí ela fez um gesto com os dedos tamborilando na mesa e se eminhocando toda...
_ Não, esse bicho aí é uma centopéia. Eu acho.
_ Ah, nesse caso nunca ouvi falar em palímodro.
_ Palíndromo.
_ Ai, o que é?
_ Seu nome é um.
_ Ahn?! - Fez uma cara muito ofendida, misturada com aquela de mosca morta. Se é que existe isso. Mas logo desfiz a ofensa.
_ O nome do meu príncipe também é. São nomes muito especiais, porque são palavras mágicas que podem ser lidas de trás pra frente que fica a mesma coisa. - Alcancei um papel e caneta no aparador da cozinha e escrevi o nome dela e o nome dele para ela ver. Escrevi também Acaiaca e “a sacada da casa”...
_ Nossa! Que legal.
_ É, só meninas, meninos e lugares muito especiais têm nomes assim.
Foi quando me virei e vi meu Peter Pan parado atrás de nós com a cara amarrotada, marcada e amarrada. Ele soltou um “Ô mãe!” inconfundível, com ciúmes do seu lugar, seu pão, seu achocolatado e, assim espero, de mim. Era a indignação em pessoinha.