Outro dia eu estava num lugar amplo, e me perguntava, que lugar é esse? De onde eu estava, olhava para frente, para os lados, para trás e não havia limite, não tinha algo que dissesse onde estava, era um lugar solto no espaço.
Havia uma multidão na minha frente, atrás de mim estava chegando cada vez mais gente. Apesar de todos estarem se dirigindo a uma mesma direção, eles estavam com o mesmo olhar perdido, talvez procurando os mesmos sinais que eu.
Acho que é o pátio de entrada para o céu, foi o melhor que pude pensar na hora. Estamos mortos. Ou será que estou sonhando que morri? Por que não tem ninguém aqui para dar informações? As memórias estão todas distantes, não consigo me lembrar da última coisa que me lembro, parece que ontem nunca existiu, só dez anos atrás pra trás; exatamente antes de chegar aqui eu estava onde? Já não é ruim o suficiente ter morrido? Não precisavam nos destratar assim.
Por outro lado, pensei, que se aqui for o inferno, não é tão ruim quanto diziam. Tentei afastar a idéia de que ali era o inferno, porque me lembrei que a minha religião diz que se a gente acredita no céu, vai pro céu, se a gente acredita em reencarnação, reencarnamos, e por aí em diante, depois de morrer vamos para onde acreditamos. Então é melhor deixar a idéia de que aqui é um céu ruim e um inferno agradável e tentar conseguir informação com alguém.
_ Amigo, desculpe incomodar, gostaria de umas informações.
_ Pois não.
_ Você já está aqui há muito tempo?
_ Não sei.
_ Mas sabe onde estamos?
_ Estava agora mesmo imaginando isso. Acho que o inferno está lotado e nos enviaram pro céu, mas pelo visto não tem vaga também. Que bagunça.
_ Eu achava que após a morte haveria paz e esclarecimentos, respostas sabe? Não um problema de estrutura celestial.
_ É melhor não reclamar, ainda bem que não tem estrutura e, por isso, o inferno está cheio. Essa confusão no céu é melhor do que a organização de um Campo de Contração.
_ Pensando bem, é uma idéia absurda, deve ser mais uma das idéias absurdas em que acreditei. Achar o sentido da vida na morte, além de contraditórias, a vida e a morte, de que me valeria saber sobre a vida agora que provavelmente estou morto. Nesse caso só me cabe concluir que a vida não faz sentido mesmo. E nesse caso, por que achar que a morte teria algum sentido?
Nesse momento, o meu interlocutor - o senhor com a teoria da falta de estrutura e conseqüente superlotação do inferno - já estava fazendo cara de quem está extremamente mais confuso com o que eu estava dizendo, do que com aquela situação toda. Resolvi parar de falar.
Para esse senhor o inferno estar lotado é uma teoria válida, mas a vida fazer sentido é uma idéia mais absurda do que estar perdido, no meio da morte, com uma multidão de olhar vago. Ufa.
Meu pensamento se voltou às pessoas de novo, olhando bem, elas estão com cara de quem está confuso com suas próprias idéias, cada um aqui deve ter uma explicação diferente, todas mirabolantes.
Deve ser super interessante conversar com cada um, mas se fizer isso vou me levar a nada. Aliás, aqui deve ser isso, o nada, quem vivia sem se interessar muito onde ia dar, dá aqui. Pronto! Nasceu outra teoria que também não vai me ajudar. Preciso achar alguém, quero falar com deus!
Pensando nisso, foi quando vi um ser passando pelo povo, descava-se porque era alto, esguio e tinha uma prancheta na mão, parecia saber onde estava e o que estava fazendo, andava como se fosse chegar a algum lugar. Na hora percebi que ele trabalhava ali, devia ser um tipo de anjo. Enfim alguém com respostas, eu já estava ficando ansioso, afinal de contas apesar de ter toda a eternidade não é assim que gostaria de gastá-la: em estado de espera no pátio dos confusos. Tenho que fazer alguma coisa.
Na hora me veio a lembrança de que eu era especial para deus, de que nada era por acaso... E considerando a teoria do senhorzinho, se me livrei do inferno e estou a porta do céu é porque deus quis assim, ele deve estar querendo falar alguma coisa comigo, e estou perdendo meu tempo aqui.
_ Anjo, amigo, oi, pode me dar um informação, por favor?
_ Isso não depende de mim, senhor. – Ele me surpreendeu com a rispidez, muito diferente da imagem que tenho dos anjos como seres amorosos. Por isso devolvi a insolência no mesmo tom.
_ Como assim? Ainda não te fiz a pergunta.
_ Por isso mesmo, não depende de mim, senhor.
_ Depende de quem, então, querido? – Eu já estava cansado da má vontade desse anjo.
_ De quem faz a pergunta. – Ele respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, me fazendo me sentir obviamente burro. O pior é que concordei com ele, lembrei de uma longa conversa que tive com uma menina que me fazia perguntas impossíveis de responder, e me culpava por não poder responder.
_ Tá bom, olha, sou o Tiago, gostaria de falar com deus.
_ Seu nome é Tiago?
_ É. Sou eu mesmo.
_ E qual é o meu nome?
_ Como assim?
_ Nome. O meu nome, você sabe?
_ Claro que não, não te conheço.
_ Então, também não te conheço. E daí que você é Tiago? E daí que quer falar com deus? Todo mundo quer falar com deus, até eu, mas tenho que ficar aqui.
A anjo realmente estava muito mal humorado.
E o meu mundinho frágil por si só, tinha acabado de criar a criatura mais cruel, essa crueltura por mais rude que fosse, não estava me atingindo com sua aspereza, o que me feria era aquela verdade, o céu era mais um pesadelo. Não estava conseguindo acreditar naquilo, e ao mesmo tempo não consegui parar que pensar nas suas conseqüências.
Deus era muito ocupado; estava regendo as leis universais, coordenando seus arcanjos e querubins, debatendo com os santos a salvação de novas almas, a validade da reencarnação e o oitavo pecado capital.
Isso só pode ser um sonho. Em que outro lugar eu estaria falando com um anjo rude? A não ser que eu realmente esteja morto. Enquanto não acordo ou ressuscito tenho que dar um jeito de sair daqui. A insistência é uma virtude de quem tem desejos impossíveis.
_ Olha, preciso entender o que estou fazendo aqui, que lugar é esse, o que é o universo, o mistério da vida, o quê ou quem é deus, qual o sentido da morte... me responde!
_ Santa paciência! Não é pouca coisa, você quer saber demais. Todo esse conhecimento está a sua disposição, mas vai gastar a eternidade para captá-lo. Não é possível chegar a ele num bate papo como esse. Imagine encontrar com um médico na fila de um banco e pedir para ele te ensinar medicina, por mais que ele tenha a boa vontade de responder todas as suas perguntas, não é assim que vai aprender. Todo conhecimento está a nossa disposição, acessá-lo é trabalhoso e um caminho penoso. Boa parte desse aprendizado se dá exclusivamente pela experiência, isso é muita dor, muito prazer, muita tristeza, felicidade e todas as categorias de sentimentos e sensações que por sua contrariedade anulariam-se. Todo conhecimento é uma espécie de vazio que abre um novo mundo e cria novas dúvidas. Assim como duas teorias contraditórias anulam-se mutuamente, dois sentimentos contraditórios jogam-se no vago, num espaço aberto. A permanência do conflito, da dúvida e da contradição é a condição básica da existência, temos a consciência das coisas porque somos capazes de pensar no seu contrário. Um conceito e uma idéia só existem na exata medida que houver seu contrário, no código genético da fidelidade está a possibilidade de traição. Por isso cada coisa que aprender aumentará sua dúvida. Satisfeito?
_ Santa sacanagem! Não pode ser assim. Morrer não deveria ser mais complicado do que viver, sonhar não pode ser mais preocupante do que estar acordado. Eu preciso de respostas claras, sou especial para deus? Ele vai me dar respostas? Quero falar com deus!
_ Olha todos nós queremos, aliás pelo que sei deus também quer falar com a gente, então deveria simplesmente acontecer facilmente, mas não acontece graças a alguma explicação que só deus tem e não fala para ninguém, então qual é o sentido de você perturbá-lo com essas perguntas. Isto é, ele nunca disse que tinha uma boa explicação para tudo isso, nós é que supomos é que ele tenha, portanto tudo é um grande mistério e talvez a resposta seja: não faz sentido mesmo, e daí. Mas se você quiser aprender basta começar a estudar... Ou inventar, virar artista, passear... Presta atenção numa coisa, para aproveitar as coisas boas, nenhuma dessas respostas é verdadeiramente necessária, se você puder se conformar em saber que ninguém nunca obteve essa resposta, talvez pare de se preocupar tanto com isso, no fim das contas embora sejam as perguntas mais importantes, suas respostas não são nem um pouco importantes. Pelo menos do ponto de vista que ninguém nunca precisou realmente delas para ser feliz, para desfrutar do paraíso, fazer sexo, escrever um livro, se alimentar, amar, ter filhos... Não é você que vai precisar delas, então relaxe. Deus não sabe seu nome, mas não se assuste, é muita gente, ele não sabe o nome de ninguém, é desolador, nós também não sabemos o nome dele, e muitas vezes o odiamos por tudo de ruim que ele permite que aconteça. É uma relação muito complicada essa que temos com deus.
_ Ah, entendi. Resumindo: aqui é o inferno, ainda não fomos transferidos.
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Um forte barulho de um caminhão passando acabou me acordando, quis tanto voltar a dormir, mas depois de meia hora tentando parecia que eu tinha tomado um litro de café, estava eletrizado e com mil pensamentos por segundo, simplesmente não conseguia parar de pensar nesse sonho. Primeiro, fiquei imaginando a sua continuação, o que mais o anjo teria a me dizer?
Ele sugeriria que eu entrasse para uma universidade celestial e me aprofundasse em algum tema, qualquer um, afinal de contas há uma sabedoria universal em qualquer coisa que pesquisemos a fundo. Isso me libertaria dessas questões.
Depois eu tentei imaginar, que após chateá-lo insistentemente ele me levaria até arcanjo, que me levaria ao querubim, que me levaria ao serafim, quem enfim me deixaria falar com deus. Mas ai sinceramente deus estava irredutível em falar sobre o sentido da vida e por mera retaliação não vou dar espaço a ele aqui. Talvez em outra oportunidade.
Mas depois desse afã criativo, lembrei que, de acordo com a psicologia, no sonho eu sou todos os personagens. Isto é, eu tenho opiniões muito fortes quando estou dormindo, é uma pena que nenhuma delas faça sentido quando eu acordo.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Outro personagem
É fascinante pensar o quanto o medo está presente na humanidade, um sentimento sustentado pelo instinto. Muitas pessoas deixam de sentir ódio, controlam sua raiva, param de amar, mas desconheço quem não sinta alguma forma de medo. Se alguém tem medo de barata e resolve encarar esse medo, vai vencê-lo sem dúvida, mas ele vai nascer de novo sob outra forma, talvez, se nunca teve medo de andar a noite na rua, passará a ter. Nosso medo muda de figura e cresce, e nós também.
Existe nisso algo que está além do instinto, existe alguma verdade que revela muito sobre nós, e seria bom se parássemos um pouco para pensar sobre isso.
Ao longo da vida, o medo da morte manifesta-se nos medos irracionais. A barata, por exemplo, é um ser que merecia nossa admiração, resiste 50 vezes mais radiação do que nós, vive semanas sem a própria cabeça, regenera uma perma inteira e tem uma vida sexual muito ativa, além disso não faz mal a ninguém, você alguma vez viu uma pessoa ferida por uma barata? Alguém que pegou uma doença de uma barata? Onde poderia se justificar um medo de uma animal tão inofensivo quanto as simpáticas formiguinhas? Ter medo de baratas faz tanto sentido quanto temer formigas ou borboletas: não se justifica; se bem que as formigas sim picam, quem nunca foi picado por uma formiga? O inconsciente medo de morrer está escondido nos medos de escuro, de barata, da solidão, de mim...
Morrer é um insolúvel problema desconfortante. Aliás em nossa existência cheia de dúvidas, essa tristeza terrível é, ironicamente, a única certeza: tudo está morto, mais cedo ou mais tarde.
Existe nisso algo que está além do instinto, existe alguma verdade que revela muito sobre nós, e seria bom se parássemos um pouco para pensar sobre isso.
Ao longo da vida, o medo da morte manifesta-se nos medos irracionais. A barata, por exemplo, é um ser que merecia nossa admiração, resiste 50 vezes mais radiação do que nós, vive semanas sem a própria cabeça, regenera uma perma inteira e tem uma vida sexual muito ativa, além disso não faz mal a ninguém, você alguma vez viu uma pessoa ferida por uma barata? Alguém que pegou uma doença de uma barata? Onde poderia se justificar um medo de uma animal tão inofensivo quanto as simpáticas formiguinhas? Ter medo de baratas faz tanto sentido quanto temer formigas ou borboletas: não se justifica; se bem que as formigas sim picam, quem nunca foi picado por uma formiga? O inconsciente medo de morrer está escondido nos medos de escuro, de barata, da solidão, de mim...
Morrer é um insolúvel problema desconfortante. Aliás em nossa existência cheia de dúvidas, essa tristeza terrível é, ironicamente, a única certeza: tudo está morto, mais cedo ou mais tarde.
Outro personagem
Eu enrolo muito antes de colocar uma idéia no mundo. Tantos rodeios são frutos de idéias que não resistem muito fora de mim. Não é a realidade que não as aceita, são as idéias que perdem o interesse de existir. A verdade é que sequer saem, gestam-se eternamente. Eu fiz tantos sonhos na vida, os realizei, corajosamente lutei por tudo. E ainda não sei porque é tão difícil assim encará-los. Encarar um sonho faz tremer um continente.
Medo do fracasso, do ridículo, da vergonha, da solidão, da mediocridade, eu não sei onde o meu medo se esconde. Mais jovem, ainda criança, tive medo de muita coisa, cada hora uma coisa diferente, medo do diabo, medo do escuro, medo de barata, medo de comer antes de orar, medo das doenças do fantástico, medo de ratos com caras de palhaços em baixo da cama, medo de dormir e nunca mais acordar, mas principalmente medo deus. Nossa... É em deus que nossos medos se escondem, deus é o medo da morte.
É impressionante como a coragem se forja diante de cada medo e que vencer um pequeno medo é preparar-se para encarar um maior, é assim sucessivamente, até chegar o momento em que está preparado para encarar a deus.
Eu tinha doze anos quando me dediquei a ler a bíblia, nessa idade é muito grande o risco que corri de acreditar em tudo aquilo. Antes de ler a bíblia deus era um cara simples, poderoso, cheio de histórias mirabolantes, um ser fascinante ainda que incompreensível por ser vasto ao infinito. Era impossível de entendê-lo completamente simplesmente por ser muitas coisas.
Mas depois de ler e crer, mesmo que deus fosse apenas uma frase, um verbo, ainda assim seria uma incógnita, um ser simplesmente impossível de compreender... e, é claro, de agradar. Um ser com enorme criatividade para lhe fazer sofrer e pagar por cada ato, mesmo quando resolve te amar.
Na vida não há caminhar sem dor e ainda por cima termina na morte, não importa o que façamos, e isso assusta. Quando conhece um deus assim, você não pode fugir, não vai se esconder, impossível negar, não há barganha, você não tem como pagar propina e, se resolver xingá-lo, ele não ouve. Amigo, não tem jeito, tem que encará-lo.
Medo do fracasso, do ridículo, da vergonha, da solidão, da mediocridade, eu não sei onde o meu medo se esconde. Mais jovem, ainda criança, tive medo de muita coisa, cada hora uma coisa diferente, medo do diabo, medo do escuro, medo de barata, medo de comer antes de orar, medo das doenças do fantástico, medo de ratos com caras de palhaços em baixo da cama, medo de dormir e nunca mais acordar, mas principalmente medo deus. Nossa... É em deus que nossos medos se escondem, deus é o medo da morte.
É impressionante como a coragem se forja diante de cada medo e que vencer um pequeno medo é preparar-se para encarar um maior, é assim sucessivamente, até chegar o momento em que está preparado para encarar a deus.
Eu tinha doze anos quando me dediquei a ler a bíblia, nessa idade é muito grande o risco que corri de acreditar em tudo aquilo. Antes de ler a bíblia deus era um cara simples, poderoso, cheio de histórias mirabolantes, um ser fascinante ainda que incompreensível por ser vasto ao infinito. Era impossível de entendê-lo completamente simplesmente por ser muitas coisas.
Mas depois de ler e crer, mesmo que deus fosse apenas uma frase, um verbo, ainda assim seria uma incógnita, um ser simplesmente impossível de compreender... e, é claro, de agradar. Um ser com enorme criatividade para lhe fazer sofrer e pagar por cada ato, mesmo quando resolve te amar.
Na vida não há caminhar sem dor e ainda por cima termina na morte, não importa o que façamos, e isso assusta. Quando conhece um deus assim, você não pode fugir, não vai se esconder, impossível negar, não há barganha, você não tem como pagar propina e, se resolver xingá-lo, ele não ouve. Amigo, não tem jeito, tem que encará-lo.
Um Personagem
Passo o dia pensando nas coisas mais absurdas, enquanto vou fazendo as coisas cotidianas e me distraindo com os pensamentos dos outros. Vêm a mim idéias inovadoras, revelações divinas que encontram nas banalidades verdades universais, iluminações sobre o comportamento humano, a vida após a morte, o sentido da maldade e a alma. A cada idéia parece-me que nasceu um livro, mas quando à noite sento em frente à folha, desejoso de escrever, dá-me um branco puro feito lágrima. Num segundo brota o segundo volume, no outro já vem a réplica, depois o prefácio a segunda edição, o reconhecimento e talvez até uma revolução em decorrência do impacto dessas idéias. Aí, canso só de imaginar e durmo.
Passam-se anos e percebo que para aperfeiçoar o livro devo ler mais, atualizar, corrigir, cortar excessos e estilismo, incluir a citação de outros autores já consagrados, buscar referências externas, identificar plágios inconscientes ou pior inconsistentes. Aprofundar, detalhar, explicar melhor, desenhar talvez. Mas nesse ponto, onde já domino completamente o assunto, mudo de idéia. E vem mais um dia pensando...
É incrível como este continua a ser um livro em branco. Eu fecundo um livro completo, mas não nasce sequer a primeira linha, não tem meio e fim, e fico sem meus porquês. No fim de toda a maratona intelectual o tempo vai apagando todo o esforço. Minha memória não me dá a mínima importância. Ela, melhor do que ninguém, sabe que não pode me levar tão a sério.
Aquilo que eu chamava de minha personalidade minha memória distanciou, ela vai me esquecendo... este ano parece que esqueci quase tudo, não ouço mais buarque, deixei de ir ao cinema, não leio mais tantos livros, parei de escrever, não flerto, desinteressei-me. Lembro dessas coisas que faziam parte de mim, às vezes sinto uma falta igual as das saudades dos amigos que partiram. É claro que estamos sempre em constantes mudanças, mas o problema é que tenho dificuldade em me identificar com aquela pessoa que eu fui. Meu passado se torna um amigo, não sou eu, é a história de alguém que conheço bem ou vi num filme, me contaram ou estudei profundamente, mas não sou eu.
Quando olhamos para uma foto nossa tirada dez anos atrás, impressiona-me nossa capacidade nos reconhecer ali, algumas vezes me sinto seu antagonista, aquele eu mais jovem, mais despreocupado me causou tantos problemas que minha vontade é de surrar o sujeito sorridente da foto. É um pensamento comum sentirmos vontade de falar para ele alguma sabedoria que seja útil, que evite uma humilhação, um sofrimento, alguma coisa. Eu, por exemplo, se pudesse voltar no tempo para me falar alguma coisa, iria falar os números da loteria, isso certamente facilitaria minha vida. Até porque meus erros não foram por falta de aviso.
Na verdade, imagino que esse Eu mais jovem, que me deixa com saudade, tem muito mais coisa para me dizer, alguns sonhos a me lembrar, a motivar minha revolução, a me mostrar como era fácil me entregar a fé nos outros, a apaixonar-me por tudo, ao gosto pela madrugada, ao destemor, a inabalável confiança na eternidade, a não viver sem chocolate, sorvete, cinema, música, arte plástica, pizza e não viver sem fazer a revolução, a sempre dormir ao lado de quem ama.
Pensando bem, me lembro de tudo isso, está latente em mim, preciso dar um espaço para esse viajante no tempo falar tudo o que quer.
Existe um outro personagem que sempre me visita, vem me trazer um pouco de sabedoria útil para evitar arrependimentos, é o Eu mais velho que de alguma forma está conseguindo olhar para uma foto dele mais jovem e se identificar comigo, e voltar para me dar conselhos.
Mas é claro que as coisas que ele diz fazem ainda menos sentido, do que meus livros em branco.
Se você puder imaginar o que você aos 50 anos estará dizendo a você aos 30, vai saber exatamente do que estou falando. Imagine recados como: não vá a Angola, sendo que você não tem nenhum plano de ir a Angola... É engraçado, saber como seria se realmente fosse possível esse encontro. E eu acabo seduzido por pensar nisso, sobre como o eu de 50 estará avaliando minhas escolhas de agora.
Reviver o passado ou aconselhar a própria juventude é um desejo tantas vezes almejado por tantos seres humanos, mas é somente uma esquete de comédia non sense. A não ser é claro que diga os números da loteria.
Mesmo assim continuamos a ter esses sentimentos, gostaríamos de viajar ao passado e evitar alguma coisa de acontecer, muitas vezes sofrendo por ressentimentos. Talvez uma boa maneira de se desfazer disso seja não ver pecado no passado, não ver dor, onde não há mais, esquecer-se também. Tem gente que dez anos depois ainda está magoada, fica rememorando. Deve ser algum tipo de vício, se pensarmos que vício é alguma coisa que não conseguimos parar de repetir.
Ultimamente tenho projetado em como estarei pensando sobre a vida daqui vinte anos, se estarei arrependido que não ter casado jovem, de não ter tido filhos, de não ter me dedicado a viajar o mundo enquanto jovem, de não ter buscado fortuna, de não ter escolhido me mudar para o Rio de Janeiro...
É difícil imaginar quais serão meus arrependimentos daqui vinte anos, por isso, por outro lado, se pensar em que vou me orgulhar de ter sido é mais fácil. Eu imagino que os mais velhos invejam os mais jovem: ou os bajulam ou os desprezam. É difícil encontrar aqueles que se colocam como simples viajantes no tempo. Aliás, é o que todos nós somos, certo? Viajantes no tempo.
Estamos sempre rememorando, ou projetando o futuro, estamos nesse inconstante movimento de ir e ir ao passado e ao futuro, pouco paramos no instante,. Simplesmente pouco sabemos.
No futuro, olhando para mim agora, eu teria orgulho dessa intensa luta com deus, da certeza de que faço diferença, de que cada vida tem um significado criado, de saber perdoar, de ter bom coração, dessa imensa capacidade de amar, de ser bom amante, de olhar para vida com romantismo, de não temer o futuro, de ser bom amigo, de não temer a morte... Tantas coisas legais.
É claro que há tanto sofrimento em viver, haverá dores que ainda não sou sequer capaz de imaginar, haverá tantas limitações, doenças, humilhações, decepções, privações, injustiças e outros conceitos que ainda não sou capaz de formular, ainda não passei por essas experiências. Não quero passar por nada disso, mas vendo as pessoas e lendo os jornais é difícil acreditar que está acontecendo com todos, mas eu vou conseguir um jeito que não vá acontecer comigo. de pensar nisso tudo já me canso. Começo a enxergar inutilidade de tudo, a nulidade de escrever tudo isso. Talvez por isso, mesmo que estejam aí as palavras, o livro continue em branco.
Às vezes eu acho que estamos buscando uma saída para essas coisas que todos nós sabemos que existe, toda a dor. Mesmo que você consiga acreditar que sua vida será um mar de rosas, ainda assim não há como escapar de morrer.
Buscamos a saída, na religião, na carreira, na família, na sociedade, nas artes, na filosofia, em nós mesmos, no ego, no prazer e no medo. Em tantas coisas, em Deus.
De uma forma ou de outra estamos todos nós olhando pro céu, pro universo, estamos transcendendo... Todos nos acreditamos em algum tipo de mágica, de algo superior, mesmo os ateus, esses acreditam na história, no conhecimento, na memória, no amor, isto é, em entes conceituais, que transcendem a existência física de uma vida humana.
Todos almejamos a eternidade. Pelo menos é o que Eu, daqui a vinte anos, estarei dizendo para mim aos trinta. Se eu tiver a oportunidade de viver até lá. Infelizmente irei me esquecer de tudo isso, devia escrever, mas escrever é a coisa mais difícil que eu consigo fazer.
Passam-se anos e percebo que para aperfeiçoar o livro devo ler mais, atualizar, corrigir, cortar excessos e estilismo, incluir a citação de outros autores já consagrados, buscar referências externas, identificar plágios inconscientes ou pior inconsistentes. Aprofundar, detalhar, explicar melhor, desenhar talvez. Mas nesse ponto, onde já domino completamente o assunto, mudo de idéia. E vem mais um dia pensando...
É incrível como este continua a ser um livro em branco. Eu fecundo um livro completo, mas não nasce sequer a primeira linha, não tem meio e fim, e fico sem meus porquês. No fim de toda a maratona intelectual o tempo vai apagando todo o esforço. Minha memória não me dá a mínima importância. Ela, melhor do que ninguém, sabe que não pode me levar tão a sério.
Aquilo que eu chamava de minha personalidade minha memória distanciou, ela vai me esquecendo... este ano parece que esqueci quase tudo, não ouço mais buarque, deixei de ir ao cinema, não leio mais tantos livros, parei de escrever, não flerto, desinteressei-me. Lembro dessas coisas que faziam parte de mim, às vezes sinto uma falta igual as das saudades dos amigos que partiram. É claro que estamos sempre em constantes mudanças, mas o problema é que tenho dificuldade em me identificar com aquela pessoa que eu fui. Meu passado se torna um amigo, não sou eu, é a história de alguém que conheço bem ou vi num filme, me contaram ou estudei profundamente, mas não sou eu.
Quando olhamos para uma foto nossa tirada dez anos atrás, impressiona-me nossa capacidade nos reconhecer ali, algumas vezes me sinto seu antagonista, aquele eu mais jovem, mais despreocupado me causou tantos problemas que minha vontade é de surrar o sujeito sorridente da foto. É um pensamento comum sentirmos vontade de falar para ele alguma sabedoria que seja útil, que evite uma humilhação, um sofrimento, alguma coisa. Eu, por exemplo, se pudesse voltar no tempo para me falar alguma coisa, iria falar os números da loteria, isso certamente facilitaria minha vida. Até porque meus erros não foram por falta de aviso.
Na verdade, imagino que esse Eu mais jovem, que me deixa com saudade, tem muito mais coisa para me dizer, alguns sonhos a me lembrar, a motivar minha revolução, a me mostrar como era fácil me entregar a fé nos outros, a apaixonar-me por tudo, ao gosto pela madrugada, ao destemor, a inabalável confiança na eternidade, a não viver sem chocolate, sorvete, cinema, música, arte plástica, pizza e não viver sem fazer a revolução, a sempre dormir ao lado de quem ama.
Pensando bem, me lembro de tudo isso, está latente em mim, preciso dar um espaço para esse viajante no tempo falar tudo o que quer.
Existe um outro personagem que sempre me visita, vem me trazer um pouco de sabedoria útil para evitar arrependimentos, é o Eu mais velho que de alguma forma está conseguindo olhar para uma foto dele mais jovem e se identificar comigo, e voltar para me dar conselhos.
Mas é claro que as coisas que ele diz fazem ainda menos sentido, do que meus livros em branco.
Se você puder imaginar o que você aos 50 anos estará dizendo a você aos 30, vai saber exatamente do que estou falando. Imagine recados como: não vá a Angola, sendo que você não tem nenhum plano de ir a Angola... É engraçado, saber como seria se realmente fosse possível esse encontro. E eu acabo seduzido por pensar nisso, sobre como o eu de 50 estará avaliando minhas escolhas de agora.
Reviver o passado ou aconselhar a própria juventude é um desejo tantas vezes almejado por tantos seres humanos, mas é somente uma esquete de comédia non sense. A não ser é claro que diga os números da loteria.
Mesmo assim continuamos a ter esses sentimentos, gostaríamos de viajar ao passado e evitar alguma coisa de acontecer, muitas vezes sofrendo por ressentimentos. Talvez uma boa maneira de se desfazer disso seja não ver pecado no passado, não ver dor, onde não há mais, esquecer-se também. Tem gente que dez anos depois ainda está magoada, fica rememorando. Deve ser algum tipo de vício, se pensarmos que vício é alguma coisa que não conseguimos parar de repetir.
Ultimamente tenho projetado em como estarei pensando sobre a vida daqui vinte anos, se estarei arrependido que não ter casado jovem, de não ter tido filhos, de não ter me dedicado a viajar o mundo enquanto jovem, de não ter buscado fortuna, de não ter escolhido me mudar para o Rio de Janeiro...
É difícil imaginar quais serão meus arrependimentos daqui vinte anos, por isso, por outro lado, se pensar em que vou me orgulhar de ter sido é mais fácil. Eu imagino que os mais velhos invejam os mais jovem: ou os bajulam ou os desprezam. É difícil encontrar aqueles que se colocam como simples viajantes no tempo. Aliás, é o que todos nós somos, certo? Viajantes no tempo.
Estamos sempre rememorando, ou projetando o futuro, estamos nesse inconstante movimento de ir e ir ao passado e ao futuro, pouco paramos no instante,. Simplesmente pouco sabemos.
No futuro, olhando para mim agora, eu teria orgulho dessa intensa luta com deus, da certeza de que faço diferença, de que cada vida tem um significado criado, de saber perdoar, de ter bom coração, dessa imensa capacidade de amar, de ser bom amante, de olhar para vida com romantismo, de não temer o futuro, de ser bom amigo, de não temer a morte... Tantas coisas legais.
É claro que há tanto sofrimento em viver, haverá dores que ainda não sou sequer capaz de imaginar, haverá tantas limitações, doenças, humilhações, decepções, privações, injustiças e outros conceitos que ainda não sou capaz de formular, ainda não passei por essas experiências. Não quero passar por nada disso, mas vendo as pessoas e lendo os jornais é difícil acreditar que está acontecendo com todos, mas eu vou conseguir um jeito que não vá acontecer comigo. de pensar nisso tudo já me canso. Começo a enxergar inutilidade de tudo, a nulidade de escrever tudo isso. Talvez por isso, mesmo que estejam aí as palavras, o livro continue em branco.
Às vezes eu acho que estamos buscando uma saída para essas coisas que todos nós sabemos que existe, toda a dor. Mesmo que você consiga acreditar que sua vida será um mar de rosas, ainda assim não há como escapar de morrer.
Buscamos a saída, na religião, na carreira, na família, na sociedade, nas artes, na filosofia, em nós mesmos, no ego, no prazer e no medo. Em tantas coisas, em Deus.
De uma forma ou de outra estamos todos nós olhando pro céu, pro universo, estamos transcendendo... Todos nos acreditamos em algum tipo de mágica, de algo superior, mesmo os ateus, esses acreditam na história, no conhecimento, na memória, no amor, isto é, em entes conceituais, que transcendem a existência física de uma vida humana.
Todos almejamos a eternidade. Pelo menos é o que Eu, daqui a vinte anos, estarei dizendo para mim aos trinta. Se eu tiver a oportunidade de viver até lá. Infelizmente irei me esquecer de tudo isso, devia escrever, mas escrever é a coisa mais difícil que eu consigo fazer.
sábado, 17 de outubro de 2009
Pai
Lembro de um dia, tinha 4 anos, estava sentado no quintal de terra, havia muitas plantas, várias árvores frutíferas, muitas flores, ali era o meu lugar preferido da casa, gostava também da varanda com seu chão liso e gelado e da cozinha por causa dos azulejos, alguns colocados errados, passava muito tempo tentando achar uma ligação entre os azulejos diferentes.
Gostava de brincar no quintal, era muito ativo, mas me lembro que também passava muito tempo sentado, num pneu que ficava no meio do quintal, simplesmente olhando o que estava acontecendo ao meu redor, no mundo dos pequeninos.
O quintal era uma festa, havia formigas, borboletas, lagartas, lagartixas, louva-deus, calangos, grilos, cigarras, sapos, mosquitos, abelhas, passarinhos, beija-flor, besouros, os cachorros, minhocas, marimbondos e, minhas prediletas, joaninhas.
Às vezes, entrava escondido no quarto dos meus pais, pegava no criado mudo uma lupa e voltava vitorioso para observar melhor. Tinha hora que focava em um bichinho só e acompanhava o que estava fazendo passo a passo.
Gostava de passar a mão nas flores, picotar as folhas de várias formas e de quebrar os gravetos em mil pedaços. Adorava desenhar no chão decorar com folhas e flores. Quando vinha chuva observa a água mudar a paisagem, ficava olhando os animais se abrigarm, os caminhos de água se formando, corria para fazer barquinhos de papel e colocar essas fragatas nos rios do meu quintal, torcia por cada uma até saírem por debaixo do portão rua a fora.
Um dia apareceu um bicho novo, menor do que um marimbondo, corpo vermelho sangue e de asas brancas e longas, voa insistentemente na minha frente, era lindo. Resolvi matar, ergui o pé e fui empurrando ele para baixo – pensando nisso agora não como foi possível. Eu sentia as asas batendo embaixo do meu pé, devagar fui abaixando até pisar no pobrezinho.
Ele me deu uma ferroada terrível logo abaixo do dedão, foi a pior dor que já tinha sentido, chorei desesperadamente, minha mãe veio correndo, me pegou no colo e perguntou o que tinha acontecido, não conseguia responder, eu chorava muito mesmo. Mostrei o pé. E quando ela virou já estava muito inchado e vermelho.
Essa é uma das minhas lembranças mais antigas. Fiquei com a imagem da sola do meu pé vermelha na cabeça até hoje, mas não lembro do que aconteceu depois.
Dá uma sensação estranha quando lembro de uns momentos da minha infância, me dá vontade de me colocar no colo, de cuidar de mim, de conversar e de brincar comigo.
Eu sou pai da minha infância.
Gostava de brincar no quintal, era muito ativo, mas me lembro que também passava muito tempo sentado, num pneu que ficava no meio do quintal, simplesmente olhando o que estava acontecendo ao meu redor, no mundo dos pequeninos.
O quintal era uma festa, havia formigas, borboletas, lagartas, lagartixas, louva-deus, calangos, grilos, cigarras, sapos, mosquitos, abelhas, passarinhos, beija-flor, besouros, os cachorros, minhocas, marimbondos e, minhas prediletas, joaninhas.
Às vezes, entrava escondido no quarto dos meus pais, pegava no criado mudo uma lupa e voltava vitorioso para observar melhor. Tinha hora que focava em um bichinho só e acompanhava o que estava fazendo passo a passo.
Gostava de passar a mão nas flores, picotar as folhas de várias formas e de quebrar os gravetos em mil pedaços. Adorava desenhar no chão decorar com folhas e flores. Quando vinha chuva observa a água mudar a paisagem, ficava olhando os animais se abrigarm, os caminhos de água se formando, corria para fazer barquinhos de papel e colocar essas fragatas nos rios do meu quintal, torcia por cada uma até saírem por debaixo do portão rua a fora.
Um dia apareceu um bicho novo, menor do que um marimbondo, corpo vermelho sangue e de asas brancas e longas, voa insistentemente na minha frente, era lindo. Resolvi matar, ergui o pé e fui empurrando ele para baixo – pensando nisso agora não como foi possível. Eu sentia as asas batendo embaixo do meu pé, devagar fui abaixando até pisar no pobrezinho.
Ele me deu uma ferroada terrível logo abaixo do dedão, foi a pior dor que já tinha sentido, chorei desesperadamente, minha mãe veio correndo, me pegou no colo e perguntou o que tinha acontecido, não conseguia responder, eu chorava muito mesmo. Mostrei o pé. E quando ela virou já estava muito inchado e vermelho.
Essa é uma das minhas lembranças mais antigas. Fiquei com a imagem da sola do meu pé vermelha na cabeça até hoje, mas não lembro do que aconteceu depois.
Dá uma sensação estranha quando lembro de uns momentos da minha infância, me dá vontade de me colocar no colo, de cuidar de mim, de conversar e de brincar comigo.
Eu sou pai da minha infância.
mar aberto
Depois de um tempo, parei de nadar um pouco para recobrar o fôlego e ver se estava chegando a algum lugar. Só vi o mar aberto ondulado feito lençol de amantes, mais ao horizonte encontra-se com o céu absolutamente nublado, venta muito, era noite, as nuvens estavam prateadas, a lua escondida devia estar cheia. As ondas eram baixas e intensas, às vezes, se enfiavam nariz a dentro, era horrível e eu estava congelando. Pensava em tanta coisa que só conseguia ficar triste e me sentir sozinho. Vi um transatlântico surgir atrás de mim, resolvi nadar na direção contrária, não queria ser resgatado, preferi ir nadando onde quer que seja. Mas ele continuava crescendo em minha direção, parecia apenas reafirmar meu pequeno tamanho, quando enfim me alcançou, passou na minha frente com muita indiferença. Mais ao longe vinha outro. Segui nadando o meu caminho, depois olhei para trás e havia uma fila desses gigantes luxuosos e então sumiram.
Sei que já atravessei quilômetros, fiquei esgotado, ainda sentia o mesmo vento cortante de frio, é o mesmo céu no mar aberto, deu medo pensar que não vou chegar a lugar algum. Desanimado e sem saber onde estava indo, comecei a pensar em dar um mergulho, o mais fundo que puder, para dar uma oportunidade a morte. E mergulhei. Comecei a afundar, foi ficando mais frio, os pulmões sentiam muita dor, os ouvidos zumbiam com o aumento da pressão, abri os olhos e ardiam, estava tudo escuro, não agüentei mais segurar o ar e involuntariamente fui expulsando... E então me lembrei para onde estava indo. Droga! Não vai dar tempo de voltar a superfície, meus pulmões se abrem a procura de ar, ah, vou morrer, enquanto vou inundando e sinto a água do mar corroer tudo aqui dentro, penso nas pessoas, quero agradecer a cada um por terem compartilhado comigo suas vidas, penso amorosamente em todos, alguns em especial e em você, a água que arde, causa dor e, apesar disso, aquece. Não controlo mais nada no meu corpo, meu coração parece explodir e surra o peito até parar, todos os meus músculos de se contraem até se rasgarem, meu corpo morre, mas ainda estou consciente e resolvo fazer uma oração antes de
Sei que já atravessei quilômetros, fiquei esgotado, ainda sentia o mesmo vento cortante de frio, é o mesmo céu no mar aberto, deu medo pensar que não vou chegar a lugar algum. Desanimado e sem saber onde estava indo, comecei a pensar em dar um mergulho, o mais fundo que puder, para dar uma oportunidade a morte. E mergulhei. Comecei a afundar, foi ficando mais frio, os pulmões sentiam muita dor, os ouvidos zumbiam com o aumento da pressão, abri os olhos e ardiam, estava tudo escuro, não agüentei mais segurar o ar e involuntariamente fui expulsando... E então me lembrei para onde estava indo. Droga! Não vai dar tempo de voltar a superfície, meus pulmões se abrem a procura de ar, ah, vou morrer, enquanto vou inundando e sinto a água do mar corroer tudo aqui dentro, penso nas pessoas, quero agradecer a cada um por terem compartilhado comigo suas vidas, penso amorosamente em todos, alguns em especial e em você, a água que arde, causa dor e, apesar disso, aquece. Não controlo mais nada no meu corpo, meu coração parece explodir e surra o peito até parar, todos os meus músculos de se contraem até se rasgarem, meu corpo morre, mas ainda estou consciente e resolvo fazer uma oração antes de
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
caminho
eu passo na rua, faço um novo caminho. daqui até ali são apenas alguns quarteirões, mas para mim não. meus passos vão despertando seres mágicos, escondidos na rachadura, na infiltração, nas manchas do chão, do asfalto, dos muros, nas paredes das casas... tudo é um caderno de desenhos; barulhos dispersos tornam-se sons, tons e notas musicais, pássaros sopranos, bicicletas, a multidão é meu coral, a vassoura raspando o chão imita chocalho. fico com vontade de falar com todo o mundo, “oi moça bonita, vou fazer graça pra você sorrir!”, “fala ai amigo, beleza?”, “bom dia! tá tudo lindo, né?” na verdade, não saio gritando, tenho boa noção da minha loucura, vou enviando mensagens telepáticas (claro, porque isso sim é normal). vejo um casal emburrado e ataco de psicoterapeuta telepático de casais, “se olhem bem, vocês são lindos e se amam, não se percam para pequenezas”. dai, me distraio facilmente porque passa por mim uma borboleta, dessas de verdade, não daquelas que fazem figuração em poesia, linda, digo a ela, ei, volta aqui! e lá volta e pousa um segundo na minha mão e lá vai. já é a quarta vez esse mês que isso acontece, começo a achar que elas gostam de mim. quem me me vê simplesmente caminhando pela cidade, não sabe que me segue essa multidão, meu mundo está vivo, e amando.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
To be Lu
Lu,
eu vou te falar da minha vida, sobre o que está acontecendo, o que estou fazendo e pensando ultimamente. Ainda sinto saudades da minha antiga rotina, da política e da convivência divertida com o meu povo. Na verdade, essa saudade tem crescido com o tempo – você sabe que eu nunca saí da fase do porquê – e quis saber o porquê disso.
Não faltaram explicações, a mais simples: foram muitos anos de dedicação, minha juventude deixa saudades. Outro fator: foi a obra da minha fé no mundo, naquele tempo realizei o que sonhei. Mais uma: nesse caminhar, houve muita dor, prazer e aprendizado, muito do que sou hoje se deve a essa época. Mas a explicação mais provável é que com o tempo passando estão sobrando apenas boas lembranças.
Lu, fiquei pensando em você naquele tempo. Você é tão importante na minha história – sei que, às vezes, sou Exagerado, ou quase sempre, mas quero que receba isso como uma simples verdade: você, Lu, é a pessoa que eu mais absurdamente amo de todo universo e além; é muitas vezes a pessoa responsável por eu responder TO BE, quando estou nos meus momentos OR NOT TO BE. Eu te amo muito.
Agora, escrevo em qualquer lugar, ainda é manhã, estou sacolejando rumo a Maricá, a mochila no colo sustenta o bloquinho que ganhei na Conferência de Saúde Ambiental, o mp4 selando os ouvidos canta Zeca Pagodinho “ô pretinha fiquei amarrado na sua cozinha”, bloco e lápis sincronizados com as ondulações da estrada, temos uma hora daqui até lá. E hoje você é minha acompanhante.
Vou e volto todos os dias, inclusive sábados e, às vezes, domingos. Cada viagem é 1 hora; ida e volta = 2 horas, somando as esperas no ponto e as caminhadas mais 1 hora. Isto é, 3 horas por dia somente exercendo meu direito constitucional de ir e vir. E pago caro para isso, mesmo não sendo fruto do meu desejo. Mas, pasme, eu gosto.
Descanso e reflito nessas horas do caminho, afinal não me sobram muitas opções, embora também, escute música, fale com desconhecidos, escreva... Na volta, acabo dormindo, ou meditando, não sei bem a diferença entre as duas coisas e acabo parando no Terminal, no Centro de Niterói, é quando penso: __ Aff!
Chego meia-noite em casa, vou dormir às 2h da manhã, acordo às 7h. Dormir cinco horas por dia é pouco. Durmo também no fim da tarde de sábado até a noite, e durmo domingo à tarde até o início da noite. Amo dormir, tenho dois mundos, meu corpo sutil - que vivia voando - tem poucas horas de uso ultimamente. Se realmente for morar em Maricá, isso vai entrar em um bom equilíbrio. Vou voltar a ter minha duas vidas, enquanto isso sigo sonhando acordado.
Acordar cedo e dormir tarde virou mania que, aturde-se, eu gosto. Há meses vejo manhã, tarde, noite e madruga: um dia inteirinho. Amo cada fase do dia, tudo vai mudando de forma sutil, a temperatura vai oscilando, a luz transforma as coisas, mesmo que fique parado, vários lugares vão passando por mim, com seus sons, mil orquestras desfilam no meu dia, gostamos do maestro Silêncio, lembra? Até o humor dos personagens que povoam meu dia muda, hoje o motorista estava revoltado porque o genro quer ganhar o terreno da família para casar com a filhinha dele, “já estou dando a minha filha, tenho que dar o terreno?! Ele que trabalhe!”. É o dote, avisei, tem que pagar o dote. Meu dia é um filme.
Quer ser minha roteirista? Ou diretora de arte? Remake me!
Para o motorista, legislei em causa própria. É verdade. Adoraria ser dessas famílias onde ganha-se carro ao passar no vestibular e casa ao casar. Não estou reclamando, minha família me deu muito mais do que isso, principalmente alegria, foi em casa que aprendi a sorrir.
Às vezes, a caminho do ponto de ônibus, vou gradualmente me distraindo a olhar as copas das árvores, os desenhos que as suas raízes provocam na calçada, vou me distraindo com os olhares apagados que seguem para dentro de si. Sei que o desligado sou eu, mas quem passa por mim com mim com olhos mirados para frente, na verdade, carrega diante de si um espelho, está se encarando o tempo, certamente fixado m seus próprios dilemas. Já tentou andar olhando fixamente para frente? Não dá para ver nada, é somente um horizonte distante.
Vou carregando tudo do caminho, nuvem, lua, cachorro, criança, poste, árvore, encosta, muro, calçada, casa, carro... Noto as mudanças que vão ocorrendo no cenário da minha vizinhança. Vou me transformando em paisagem. E quando vejo passei do ponto de ônibus.
Lu, quero tanto sua companhia que reaprendi a pensar bem forte, e penso em você, e sei que pensa de volta em mim. Agora, enquanto estou escrevendo e enquanto está lendo essa carta, você pensa ‘parece que já li’, ou “roubou minhas ideias”, ambas verdades. Estamos juntos em um safari literário caçando estas palavras e emoldurando-as na parede de papel, nossa galeria de arte. Minha curadora é você. Anos a fio capturando suas qualidades em palavras e ainda encontro novos elogios; isso se ‘minha curadora’ for elogio.
Ultimamente tenho reparado nas minhas reincidências, repetições, mesmices, manias, ecos. Essas coisas que fazemos uma vez e repetimos por anos, depois pela convivência com elas resolvemos dar nomes a cada uma, é Gosto, é Fé, é Vício, é Meu Jeito, é Simpatia e até é Personalidade. Se uma pessoa normalmente tem 10 mil manias, tenho 1 milhão. E continuamente busco novas, gosto de assumir as manias das outras pessoas. Acho que acabei de ceder à antiga mania de sair do assunto.
Tenho reparado mais nos meus erros que se repetem – era sobre isso o parágrafo acima:
esquecer de todas as datas, viver sem relógio, me alimentar precariamente, adiar todo adiável, inventar desculpas pelo's outros, humor intermitente, tentar colocar um dia inteiro em uma hora, buscar a solidão e sumir dos meus amigos... Quando ao enumerar esses defeitos, me lembrei de muitos outros e censurei, lembrei também daqueles que foram transformados em virtude, que lutei para mudar e mudei. Desta lista escolhi um bom combate: ser um amigo melhor para você e para o Renato.
Vocês merecem mais atenção, mais cuidado, mais carinho, mais eu... Quem mais vai ganhar com isso sou eu, sofro com a distância. Sinto falta dos dois nos meus dias. Amo existir e estar por aqui [na terra] com vocês; “com vocês” é a parte importante. Sem vocês meus dias são assim:
durante os dias da semana, manhã e tarde, eu fico dentro da Secretaria do Ambiente de Maricá, pesquiso, leio e escrevo diversas coisas na área de meio ambiente, desenvolvo instrumentos legais, programas e projetos, só saio para fazer lanche. Agora que minha sala é do lado da cozinha, não saio para nada, quer dizer só quando tenho alguma reunião.
Quando vou embora mal consigo focar as coisas, de tantas horas que passei lendo no computador, isso deve fazer mal. A execução anda a passos de serviço público e, até essa semana, estava sozinho na minha equipe. Ainda por cima, às vezes, meu lado criativo falta reunião, noutras meu lado animado tinha ido viajar, é difícil reunir-me todos para resolver um problema. Definitivamente preciso de mais gente na minha equipe para produzir bem, “eus” não bastam.
Quase sempre fico até mais tarde na secretaria, aproveito a calma do lugar para estudar alguma coisa que precisa de mais atenção. Ou quando saio do trabalho na hora certa, vou para academia. Sim, eu vou para academia de ginástica; a Flávia que é a dona do estabelecimento Vip Academia, fica batendo papo comigo, enquanto sofro, ela ainda diz para eu colocar mais peso e cortar o cabelo, respondo a ela que quero continuar magro e que meu cabelo é rebelde assim mesmo, digo “não parece, mas ele é bonito”. Ela ri, as outras meninas também riem, uma delas, que eu chamo de Humilhação, coloca 30 vezes mais peso do que eu.
Meu corpo não mudou quase nada esteticamente, mas sinto mais disposição, me canso menos, penso melhor, me concentro mais na faculdade, vivo sem estresse, além de ser legal ir para academia. Realmente estou gostando.
Aos sábados estudo de manhã em Maricá e a tarde inglês em Niterói. Vou bem no curso de inglês, minha média é quase 10, fico todo bobo comigo mesmo por conseguir ser disciplinado. É claro que chego na faculdade e sou surpreendido com algum trabalho para entregar, marcado há séculos que todos sabem menos eu, estudo para prova da disciplina errada, no meio do período ainda não sei que aula é hoje e implico com os professores, eles riem, gosto muito de todos na minha turma. Eu poderia ser um bom aluno, se pudesse ser outra pessoa. Mesmo assim estou aprendendo bem.
Estou falando aqui sobre qualquer coisa, são detalhes da minha vida. E deixando de fora um fato muito importante, porque quero falar pessoalmente. O que quis dizer aqui, já disse: te amo, quero mais você.
Quero te contar mais, ou já está cansada?
Minha vida está melhor do que nunca, só perdendo para minha infância. Estou produzindo muitos textos esse ano. Vi que escreveu sobre meu Hable Com Ella: “Ah, e esses aqui ficaram de fora, de castigo, porque os Safados escrevem muito raramente”. Magoei, mas sem dúvida tem razão. Então, como uma meta de boa amizade, vou passar a ser um assíduo escritor para te dar mais um elogio: minha destinatária. Diga comigo, yes, Ti can.
Estou conversando com você sem roteiro, olha o assunto que acaba de entrar do nada:
Maricá é uma paz e uma alegria. Niterói é uma saudade, mas perdi o desejo de voltar a vida passada, ganhei novos problemas para resolver. Existe uma ansiedade em mim, gostaria de ver os resultados daquilo que estou construindo agora, aqui minha saudade ajuda, porque me lembro das batalhas vencidas, dos fitos, das derrotas e das voltas por cima (ou por baixo mesmo, na base da rasteira), isso me acalma e permite que aproveite os prazeres que encontro no caminho. No fundo sei que a vida não presta (ou é muito pior), mas sou um privilegiado de fazer parte do lado bom de viver:
aqui desse lado vejo você, Lu, cavalgando um leão, o Renato é um gigante devorando a Europa e as cores me obedecem. Que Deus resistirá ao nosso paraíso? Que Deus é esse que adora ouvir nossas conversas? Deus quer ficar entre nós. Quando triste, Ele vem se animar com nossa alegria, nossas criações, bobagens, poemas, amores, diálogos imaginários, ou só de estar juntinho. Deus quer brincar com a gente. Vamos brincar de almas gêmeas?
Com amor,
Seu exagerado
Seu.
PS.: Oi, tudo bem com você?
eu vou te falar da minha vida, sobre o que está acontecendo, o que estou fazendo e pensando ultimamente. Ainda sinto saudades da minha antiga rotina, da política e da convivência divertida com o meu povo. Na verdade, essa saudade tem crescido com o tempo – você sabe que eu nunca saí da fase do porquê – e quis saber o porquê disso.
Não faltaram explicações, a mais simples: foram muitos anos de dedicação, minha juventude deixa saudades. Outro fator: foi a obra da minha fé no mundo, naquele tempo realizei o que sonhei. Mais uma: nesse caminhar, houve muita dor, prazer e aprendizado, muito do que sou hoje se deve a essa época. Mas a explicação mais provável é que com o tempo passando estão sobrando apenas boas lembranças.
Lu, fiquei pensando em você naquele tempo. Você é tão importante na minha história – sei que, às vezes, sou Exagerado, ou quase sempre, mas quero que receba isso como uma simples verdade: você, Lu, é a pessoa que eu mais absurdamente amo de todo universo e além; é muitas vezes a pessoa responsável por eu responder TO BE, quando estou nos meus momentos OR NOT TO BE. Eu te amo muito.
Agora, escrevo em qualquer lugar, ainda é manhã, estou sacolejando rumo a Maricá, a mochila no colo sustenta o bloquinho que ganhei na Conferência de Saúde Ambiental, o mp4 selando os ouvidos canta Zeca Pagodinho “ô pretinha fiquei amarrado na sua cozinha”, bloco e lápis sincronizados com as ondulações da estrada, temos uma hora daqui até lá. E hoje você é minha acompanhante.
Vou e volto todos os dias, inclusive sábados e, às vezes, domingos. Cada viagem é 1 hora; ida e volta = 2 horas, somando as esperas no ponto e as caminhadas mais 1 hora. Isto é, 3 horas por dia somente exercendo meu direito constitucional de ir e vir. E pago caro para isso, mesmo não sendo fruto do meu desejo. Mas, pasme, eu gosto.
Descanso e reflito nessas horas do caminho, afinal não me sobram muitas opções, embora também, escute música, fale com desconhecidos, escreva... Na volta, acabo dormindo, ou meditando, não sei bem a diferença entre as duas coisas e acabo parando no Terminal, no Centro de Niterói, é quando penso: __ Aff!
Chego meia-noite em casa, vou dormir às 2h da manhã, acordo às 7h. Dormir cinco horas por dia é pouco. Durmo também no fim da tarde de sábado até a noite, e durmo domingo à tarde até o início da noite. Amo dormir, tenho dois mundos, meu corpo sutil - que vivia voando - tem poucas horas de uso ultimamente. Se realmente for morar em Maricá, isso vai entrar em um bom equilíbrio. Vou voltar a ter minha duas vidas, enquanto isso sigo sonhando acordado.
Acordar cedo e dormir tarde virou mania que, aturde-se, eu gosto. Há meses vejo manhã, tarde, noite e madruga: um dia inteirinho. Amo cada fase do dia, tudo vai mudando de forma sutil, a temperatura vai oscilando, a luz transforma as coisas, mesmo que fique parado, vários lugares vão passando por mim, com seus sons, mil orquestras desfilam no meu dia, gostamos do maestro Silêncio, lembra? Até o humor dos personagens que povoam meu dia muda, hoje o motorista estava revoltado porque o genro quer ganhar o terreno da família para casar com a filhinha dele, “já estou dando a minha filha, tenho que dar o terreno?! Ele que trabalhe!”. É o dote, avisei, tem que pagar o dote. Meu dia é um filme.
Quer ser minha roteirista? Ou diretora de arte? Remake me!
Para o motorista, legislei em causa própria. É verdade. Adoraria ser dessas famílias onde ganha-se carro ao passar no vestibular e casa ao casar. Não estou reclamando, minha família me deu muito mais do que isso, principalmente alegria, foi em casa que aprendi a sorrir.
Às vezes, a caminho do ponto de ônibus, vou gradualmente me distraindo a olhar as copas das árvores, os desenhos que as suas raízes provocam na calçada, vou me distraindo com os olhares apagados que seguem para dentro de si. Sei que o desligado sou eu, mas quem passa por mim com mim com olhos mirados para frente, na verdade, carrega diante de si um espelho, está se encarando o tempo, certamente fixado m seus próprios dilemas. Já tentou andar olhando fixamente para frente? Não dá para ver nada, é somente um horizonte distante.
Vou carregando tudo do caminho, nuvem, lua, cachorro, criança, poste, árvore, encosta, muro, calçada, casa, carro... Noto as mudanças que vão ocorrendo no cenário da minha vizinhança. Vou me transformando em paisagem. E quando vejo passei do ponto de ônibus.
Lu, quero tanto sua companhia que reaprendi a pensar bem forte, e penso em você, e sei que pensa de volta em mim. Agora, enquanto estou escrevendo e enquanto está lendo essa carta, você pensa ‘parece que já li’, ou “roubou minhas ideias”, ambas verdades. Estamos juntos em um safari literário caçando estas palavras e emoldurando-as na parede de papel, nossa galeria de arte. Minha curadora é você. Anos a fio capturando suas qualidades em palavras e ainda encontro novos elogios; isso se ‘minha curadora’ for elogio.
Ultimamente tenho reparado nas minhas reincidências, repetições, mesmices, manias, ecos. Essas coisas que fazemos uma vez e repetimos por anos, depois pela convivência com elas resolvemos dar nomes a cada uma, é Gosto, é Fé, é Vício, é Meu Jeito, é Simpatia e até é Personalidade. Se uma pessoa normalmente tem 10 mil manias, tenho 1 milhão. E continuamente busco novas, gosto de assumir as manias das outras pessoas. Acho que acabei de ceder à antiga mania de sair do assunto.
Tenho reparado mais nos meus erros que se repetem – era sobre isso o parágrafo acima:
esquecer de todas as datas, viver sem relógio, me alimentar precariamente, adiar todo adiável, inventar desculpas pelo's outros, humor intermitente, tentar colocar um dia inteiro em uma hora, buscar a solidão e sumir dos meus amigos... Quando ao enumerar esses defeitos, me lembrei de muitos outros e censurei, lembrei também daqueles que foram transformados em virtude, que lutei para mudar e mudei. Desta lista escolhi um bom combate: ser um amigo melhor para você e para o Renato.
Vocês merecem mais atenção, mais cuidado, mais carinho, mais eu... Quem mais vai ganhar com isso sou eu, sofro com a distância. Sinto falta dos dois nos meus dias. Amo existir e estar por aqui [na terra] com vocês; “com vocês” é a parte importante. Sem vocês meus dias são assim:
durante os dias da semana, manhã e tarde, eu fico dentro da Secretaria do Ambiente de Maricá, pesquiso, leio e escrevo diversas coisas na área de meio ambiente, desenvolvo instrumentos legais, programas e projetos, só saio para fazer lanche. Agora que minha sala é do lado da cozinha, não saio para nada, quer dizer só quando tenho alguma reunião.
Quando vou embora mal consigo focar as coisas, de tantas horas que passei lendo no computador, isso deve fazer mal. A execução anda a passos de serviço público e, até essa semana, estava sozinho na minha equipe. Ainda por cima, às vezes, meu lado criativo falta reunião, noutras meu lado animado tinha ido viajar, é difícil reunir-me todos para resolver um problema. Definitivamente preciso de mais gente na minha equipe para produzir bem, “eus” não bastam.
Quase sempre fico até mais tarde na secretaria, aproveito a calma do lugar para estudar alguma coisa que precisa de mais atenção. Ou quando saio do trabalho na hora certa, vou para academia. Sim, eu vou para academia de ginástica; a Flávia que é a dona do estabelecimento Vip Academia, fica batendo papo comigo, enquanto sofro, ela ainda diz para eu colocar mais peso e cortar o cabelo, respondo a ela que quero continuar magro e que meu cabelo é rebelde assim mesmo, digo “não parece, mas ele é bonito”. Ela ri, as outras meninas também riem, uma delas, que eu chamo de Humilhação, coloca 30 vezes mais peso do que eu.
Meu corpo não mudou quase nada esteticamente, mas sinto mais disposição, me canso menos, penso melhor, me concentro mais na faculdade, vivo sem estresse, além de ser legal ir para academia. Realmente estou gostando.
Aos sábados estudo de manhã em Maricá e a tarde inglês em Niterói. Vou bem no curso de inglês, minha média é quase 10, fico todo bobo comigo mesmo por conseguir ser disciplinado. É claro que chego na faculdade e sou surpreendido com algum trabalho para entregar, marcado há séculos que todos sabem menos eu, estudo para prova da disciplina errada, no meio do período ainda não sei que aula é hoje e implico com os professores, eles riem, gosto muito de todos na minha turma. Eu poderia ser um bom aluno, se pudesse ser outra pessoa. Mesmo assim estou aprendendo bem.
Estou falando aqui sobre qualquer coisa, são detalhes da minha vida. E deixando de fora um fato muito importante, porque quero falar pessoalmente. O que quis dizer aqui, já disse: te amo, quero mais você.
Quero te contar mais, ou já está cansada?
Minha vida está melhor do que nunca, só perdendo para minha infância. Estou produzindo muitos textos esse ano. Vi que escreveu sobre meu Hable Com Ella: “Ah, e esses aqui ficaram de fora, de castigo, porque os Safados escrevem muito raramente”. Magoei, mas sem dúvida tem razão. Então, como uma meta de boa amizade, vou passar a ser um assíduo escritor para te dar mais um elogio: minha destinatária. Diga comigo, yes, Ti can.
Estou conversando com você sem roteiro, olha o assunto que acaba de entrar do nada:
Maricá é uma paz e uma alegria. Niterói é uma saudade, mas perdi o desejo de voltar a vida passada, ganhei novos problemas para resolver. Existe uma ansiedade em mim, gostaria de ver os resultados daquilo que estou construindo agora, aqui minha saudade ajuda, porque me lembro das batalhas vencidas, dos fitos, das derrotas e das voltas por cima (ou por baixo mesmo, na base da rasteira), isso me acalma e permite que aproveite os prazeres que encontro no caminho. No fundo sei que a vida não presta (ou é muito pior), mas sou um privilegiado de fazer parte do lado bom de viver:
aqui desse lado vejo você, Lu, cavalgando um leão, o Renato é um gigante devorando a Europa e as cores me obedecem. Que Deus resistirá ao nosso paraíso? Que Deus é esse que adora ouvir nossas conversas? Deus quer ficar entre nós. Quando triste, Ele vem se animar com nossa alegria, nossas criações, bobagens, poemas, amores, diálogos imaginários, ou só de estar juntinho. Deus quer brincar com a gente. Vamos brincar de almas gêmeas?
Com amor,
Seu exagerado
Seu.
PS.: Oi, tudo bem com você?
domingo, 4 de outubro de 2009
má memória
Vou dormir, com essa estranha sensação: ainda tem dia que te pertence e que minha saudade é tua. Sou roubado do meu presente e jogado de volta ao teu passado, onde ganho asasasas. Voando para casa, venho pensando, onde é mesmo o meu lugar?
terça-feira, 8 de setembro de 2009
bem-te-vi
guarda em mim todo teu tormento, tomo de ti a escuridão e tremores. hoje, sou contentor das tuas trevas... sinto o teu peito contrito. deite-se onde ofertei meus rastros e assombre-se de mim. teu inferno eu roubei, então corra, desfaça as malas, venha nua, sobrou em ti apenas o paraíso
eu sou nosso, você é você-preciso gotejando pelas bordas, uma felicidade de onde vem? talvez venha assim: você é um éden, todo habitado, repleto, vivo, quase descabendo em si, daí chego, um calor, trago o apocalipse meu corpo meu barulho minha fome minha sede de quê... com minhas mãos seu espaço se abre para acolher reticências
quero-quero, bem-ti-vi, beija-flor... já flutuam pela terra as almas de nossas cecílias. nas suas entrelinhas sou um trem a todo vapor prestes a descarrilhar destinos corro mãos olhos bocas a toda pele arrebento sua represa inunda destroça o caminho das perguntas
eu sou nosso, você é você-preciso gotejando pelas bordas, uma felicidade de onde vem? talvez venha assim: você é um éden, todo habitado, repleto, vivo, quase descabendo em si, daí chego, um calor, trago o apocalipse meu corpo meu barulho minha fome minha sede de quê... com minhas mãos seu espaço se abre para acolher reticências
quero-quero, bem-ti-vi, beija-flor... já flutuam pela terra as almas de nossas cecílias. nas suas entrelinhas sou um trem a todo vapor prestes a descarrilhar destinos corro mãos olhos bocas a toda pele arrebento sua represa inunda destroça o caminho das perguntas
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Quando penso na possibilidade de deixar de existir, temo pelo mundo. Como se algo terrivelmente triste contaminasse toda a forma de vida e fizesse definhar a Terra. Se eu não estivesse aqui, o mundo acabaria. Enquanto estou, com meus pés atados ao chão, sinto que reside em mim a mesma força que mantém cada átomo vivo. E quando meu corpo finalmente cessar, tudo cantará minha alma.
Vem, então, um novo poema para musicar o mundo, quero que saiba: estou aqui, não está sozinha. Você não precisa se sentir assim, meu espírito acalma o seu. Dôo-me tudo, as minhas costas, seu abrigo, o meu peito, seu descanso; se resiste, tomo-lhe pela mão, quero lhe mostrar que o nosso planeta flutua no espaço, que somos astronautas cercando o sol, e que o nosso destino é voar de par em par, de tanto em quando, até que a morte nos comova.
Vem, então, um novo poema para musicar o mundo, quero que saiba: estou aqui, não está sozinha. Você não precisa se sentir assim, meu espírito acalma o seu. Dôo-me tudo, as minhas costas, seu abrigo, o meu peito, seu descanso; se resiste, tomo-lhe pela mão, quero lhe mostrar que o nosso planeta flutua no espaço, que somos astronautas cercando o sol, e que o nosso destino é voar de par em par, de tanto em quando, até que a morte nos comova.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
lu morena
passadio
eu não sei mais como te amo, talvez te ame singelamente por tudo; porém se desse-me só um pedacinho de ti, uma palavra espetada sequer, já seria o meu passadio, suficiente para amar descomensuravelmente. pelo visto te amo assim e assado, por tudo e por cada migalha que você joga no meu labirinto. vou te seguindo e não importa aonde, não busco um lugar, sim a companhia. deixe que os pássaros se alimentem no caminho, não quero voltar atrás a colecionar nossos farelos. desejo seguir o mistério, descobrir como te amo de tal maneira, que bastam suas ruínas, vestígios ou picotes para eu te amar mais um bocadinho...
eu não sei mais como te amo, talvez te ame singelamente por tudo; porém se desse-me só um pedacinho de ti, uma palavra espetada sequer, já seria o meu passadio, suficiente para amar descomensuravelmente. pelo visto te amo assim e assado, por tudo e por cada migalha que você joga no meu labirinto. vou te seguindo e não importa aonde, não busco um lugar, sim a companhia. deixe que os pássaros se alimentem no caminho, não quero voltar atrás a colecionar nossos farelos. desejo seguir o mistério, descobrir como te amo de tal maneira, que bastam suas ruínas, vestígios ou picotes para eu te amar mais um bocadinho...
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
hoje eu
hoje eu enxergo menos, ouso menos e peso vinte quilos mais,
uma febre no peito queimou minhas últimas lástimas de sanidade,
guardei um segredo que me fez sagrada,
o príncipe fugiu e me largou nua,
estou vaga,
ando na rua,
acerto meus passos com casais mais jovens
quero ouvir o que falam
mas não dizem nada, sorriem um com outro
então sento, fecho os olhos, tenho desligar cada sentido
até sobrarem somente os sons
ouço um hino... e choro
o que será que o tempo fez comigo?
o sofá me vence facilmente
parece que te vi passear num palco
vestida assim parece uma ilusão
é proibido desejar (deus queira que não)
que noite vazia, que lugar sem rumo
escondi o meu nome
zombam da minha história
eu sou a perdição
deixa de ser o que é para ser quem sempre foi
minha
não te recuso nada
estou no teu pesadelo
não durma
uma febre no peito queimou minhas últimas lástimas de sanidade,
guardei um segredo que me fez sagrada,
o príncipe fugiu e me largou nua,
estou vaga,
ando na rua,
acerto meus passos com casais mais jovens
quero ouvir o que falam
mas não dizem nada, sorriem um com outro
então sento, fecho os olhos, tenho desligar cada sentido
até sobrarem somente os sons
ouço um hino... e choro
o que será que o tempo fez comigo?
o sofá me vence facilmente
parece que te vi passear num palco
vestida assim parece uma ilusão
é proibido desejar (deus queira que não)
que noite vazia, que lugar sem rumo
escondi o meu nome
zombam da minha história
eu sou a perdição
deixa de ser o que é para ser quem sempre foi
minha
não te recuso nada
estou no teu pesadelo
não durma
terça-feira, 24 de março de 2009
quem fez deus?
minha irmã escreveu e como eu sou autocentrado no ego vou publicar.
2 – Tiago, 7 anos – Rio de Janeiro.
O Titi sempre foi muito curioso, crítico, questionador.
Um belo dia ele amanheceu incomodadíssimo com uma dúvida universal.
“Quem fez Deus?”
Perguntou para o meu pai,
ele lhe explicou pacientemente que Deus criou todas as coisas e que portanto Ele não foi criado.
Insatisfeito, Titi continuou perguntando para todo mundo da casa quem tinha feito Deus.
Não por falta de criatividade, mas a única resposta que demos a ele foi a mesma de meu pai.
Ele foi dormir inconformado.
No meio da noite, ele ainda dormindo se sentou na cama e disse:
“Já sei a resposta, e não digo para ninguém!!!”
2 – Tiago, 7 anos – Rio de Janeiro.
O Titi sempre foi muito curioso, crítico, questionador.
Um belo dia ele amanheceu incomodadíssimo com uma dúvida universal.
“Quem fez Deus?”
Perguntou para o meu pai,
ele lhe explicou pacientemente que Deus criou todas as coisas e que portanto Ele não foi criado.
Insatisfeito, Titi continuou perguntando para todo mundo da casa quem tinha feito Deus.
Não por falta de criatividade, mas a única resposta que demos a ele foi a mesma de meu pai.
Ele foi dormir inconformado.
No meio da noite, ele ainda dormindo se sentou na cama e disse:
“Já sei a resposta, e não digo para ninguém!!!”
domingo, 12 de outubro de 2008
poema pequenino, para lu rir.
lú,
adoro-lhe
adoro lhe fazer rir.
e você diz que sou bom nisso,
é o meu esporte,
meu time do coração,
torço muito por você, lindinha.
meu último elogio,
lú, você é o meu mengão.
adoro-lhe
adoro lhe fazer rir.
e você diz que sou bom nisso,
é o meu esporte,
meu time do coração,
torço muito por você, lindinha.
meu último elogio,
lú, você é o meu mengão.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Para Lu
última flor
feche a porta,
não deixe o mundo entrar,
quero sonhar na solidão,
rodeado de objetos, gravuras, filmes, músicas, fotos e travesseiros,
memórias de procelana, papel e utilitários high-tech.
parece que nossa vida desfaz-se no tempo e forma estalactites.
esse inventário de saudades selecionadas:
esta ganhei da primeira namorada;
é da minha viajem ao Morro de São Paulo;
uma jangada de Canoa Quedrada;
o autoretrato da Lu;
aquele cachecol;
a minha penúltima dor.
gostava quando minha ansiedade era contar os minutos até a hora do recreio.
a maior ambição era fazer o melhor castelo de areia.
quando era criança e me apaixonava por alguém, bastava pensar bem forte,
assim ela pensava em mim também,
como era mesmo que se fazia essa mágica?
éramos tão jovens,
lembro-me do seu cheirinho de chuva,
como permitimo-nos envelhecer? agora, há esse silêncio entre nós.
será que essa saudade pára?
será que as interrogações passam ou desistimos.
afinal, por quê?
escolhi ficar com o friozinho na barriga e fitar mil abismos,
mas é mais fácil viver de olhos fechados, de mãos dadas, à dois.
meu melhor amigo foi para Londres.
fico um tanto perdido sem ele aqui, era tão seguro,
tinha mais assuntos para escrever.
agora, desmancho-me em palavras,
já não tenho mais à quem dizer adeus.
mentira, que exagerado sou,
ainda tenho a Lu,
minha última flor.
feche a porta,
não deixe o mundo entrar,
quero sonhar na solidão,
rodeado de objetos, gravuras, filmes, músicas, fotos e travesseiros,
memórias de procelana, papel e utilitários high-tech.
parece que nossa vida desfaz-se no tempo e forma estalactites.
esse inventário de saudades selecionadas:
esta ganhei da primeira namorada;
é da minha viajem ao Morro de São Paulo;
uma jangada de Canoa Quedrada;
o autoretrato da Lu;
aquele cachecol;
a minha penúltima dor.
gostava quando minha ansiedade era contar os minutos até a hora do recreio.
a maior ambição era fazer o melhor castelo de areia.
quando era criança e me apaixonava por alguém, bastava pensar bem forte,
assim ela pensava em mim também,
como era mesmo que se fazia essa mágica?
éramos tão jovens,
lembro-me do seu cheirinho de chuva,
como permitimo-nos envelhecer? agora, há esse silêncio entre nós.
será que essa saudade pára?
será que as interrogações passam ou desistimos.
afinal, por quê?
escolhi ficar com o friozinho na barriga e fitar mil abismos,
mas é mais fácil viver de olhos fechados, de mãos dadas, à dois.
meu melhor amigo foi para Londres.
fico um tanto perdido sem ele aqui, era tão seguro,
tinha mais assuntos para escrever.
agora, desmancho-me em palavras,
já não tenho mais à quem dizer adeus.
mentira, que exagerado sou,
ainda tenho a Lu,
minha última flor.
sábado, 11 de agosto de 2007
Sem Verbo
I-
Um sonho bom a semana inteira.
Durante toda a semana
o mesmo sonho de domingo a sábado,
no início: entre beijos, pela boca entreaberta, carícias a contra pêlo e
palavras adstringentes (por fim).
E tudo de novo, todos os dias, ou melhor, todas as noites,
todas as madrugadas, esses dias negros!
Depois disso,
já de olhos despertos,
saudade, por todos lugares
(De todos lares
aos copos dos bares).
Na verdade, muita saudade,
um pouco de lamento e um tempo de solidão.
Nesse tempo, por baixo dos panos, em segredo, minha angústia,
por cima deles: meu romantismo duvidoso com textos sem verbos,
sem esperança,
sem força para nada,
somente para os passos.
Passo após passo,
meus pés independentes de mim,
minha vida sobre o peito do pé,
pé ante pé,
pelo seu caminho,
desse caminho à corda bamba,
com felicidade falsa de um lado,
conformismo verdadeiro de outro,
passo após passo,
equilíbrio após susto,
até que um passo em falso...
Poft! na calçada.
Último delírio,
num dia muito esquisito
feito de hoje.
II -
Hoje, você e eu juntos de novo,
dessa vez fora do sonho,
aqui dentro, num passo em falso de morte...
Morte: com olhos tristes, atônitos, até o chão,
além dele, pelos seus sete palmos.
Sonho e realidade, tudo muito confuso, confusão com sabor de saliva.
A saliva das suas palavras desnecessárias, seu aviso, suas certezas equivocadas:
“Hoje e nunca mais”... (de novo!?)
Do seu último “nunca” até agora: uma semaninha.
mesmo num Nunca breve assim, que ruim!
Seu nunca, tempo demais para minha vida curta,
mais breve vida.
Nunca, pela metade! pelo menos.
Pois metade do seu nunca, numa matemática apressada, igual a 3 (três) dias [e meio]!!!
Nesse meio nunca, só beijos, palavras e abraços,
bocas, cansaços e juras, uma felicidade só.
Felicidade em meio ao nunca...
Uma vida generosa, sem nuncas,
como no sonho:
7 vezes: de domingo a sábado.
Assim, saudade, lamento e solidão: nunca mais!
Na verdade, um pouquinho de saudade, talvez.
(e um ‘nunca mais’ de fato, não o seu nunca mais)
Na realidade,
porém, na nossa cadeia:
Depois do nunca, os dias.
Depois de dias, a noite.
Durante a noite, o sonho.
Depois do sonho, a saudade.
Durante a saudade, a espera.
Depois da espera, a bonança.
Durante a bonança, os beijos (e que beijos!).
Depois dos beijos, a tempestade.
Durante a tempestade, o “nunca mais”.
Depois do nunca, mais espera...
Até quando?
Até quando: Hiatos,
(de quando em quando, mas sempre desnecessários)
entre um sujeito sem verbos
e um triste predicado sem jeito.
Hiato da promessa em sonhos às madrugadas do nunca.
Um sonho bom a semana inteira.
Durante toda a semana
o mesmo sonho de domingo a sábado,
no início: entre beijos, pela boca entreaberta, carícias a contra pêlo e
palavras adstringentes (por fim).
E tudo de novo, todos os dias, ou melhor, todas as noites,
todas as madrugadas, esses dias negros!
Depois disso,
já de olhos despertos,
saudade, por todos lugares
(De todos lares
aos copos dos bares).
Na verdade, muita saudade,
um pouco de lamento e um tempo de solidão.
Nesse tempo, por baixo dos panos, em segredo, minha angústia,
por cima deles: meu romantismo duvidoso com textos sem verbos,
sem esperança,
sem força para nada,
somente para os passos.
Passo após passo,
meus pés independentes de mim,
minha vida sobre o peito do pé,
pé ante pé,
pelo seu caminho,
desse caminho à corda bamba,
com felicidade falsa de um lado,
conformismo verdadeiro de outro,
passo após passo,
equilíbrio após susto,
até que um passo em falso...
Poft! na calçada.
Último delírio,
num dia muito esquisito
feito de hoje.
II -
Hoje, você e eu juntos de novo,
dessa vez fora do sonho,
aqui dentro, num passo em falso de morte...
Morte: com olhos tristes, atônitos, até o chão,
além dele, pelos seus sete palmos.
Sonho e realidade, tudo muito confuso, confusão com sabor de saliva.
A saliva das suas palavras desnecessárias, seu aviso, suas certezas equivocadas:
“Hoje e nunca mais”... (de novo!?)
Do seu último “nunca” até agora: uma semaninha.
mesmo num Nunca breve assim, que ruim!
Seu nunca, tempo demais para minha vida curta,
mais breve vida.
Nunca, pela metade! pelo menos.
Pois metade do seu nunca, numa matemática apressada, igual a 3 (três) dias [e meio]!!!
Nesse meio nunca, só beijos, palavras e abraços,
bocas, cansaços e juras, uma felicidade só.
Felicidade em meio ao nunca...
Uma vida generosa, sem nuncas,
como no sonho:
7 vezes: de domingo a sábado.
Assim, saudade, lamento e solidão: nunca mais!
Na verdade, um pouquinho de saudade, talvez.
(e um ‘nunca mais’ de fato, não o seu nunca mais)
Na realidade,
porém, na nossa cadeia:
Depois do nunca, os dias.
Depois de dias, a noite.
Durante a noite, o sonho.
Depois do sonho, a saudade.
Durante a saudade, a espera.
Depois da espera, a bonança.
Durante a bonança, os beijos (e que beijos!).
Depois dos beijos, a tempestade.
Durante a tempestade, o “nunca mais”.
Depois do nunca, mais espera...
Até quando?
Até quando: Hiatos,
(de quando em quando, mas sempre desnecessários)
entre um sujeito sem verbos
e um triste predicado sem jeito.
Hiato da promessa em sonhos às madrugadas do nunca.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Sonho bandido
Ver-te assim, sereno
me rouba o sono
e me vingo:
assopro no ouvido uma jura
que arrepia teu sonho bandido.
Abrem-se os olhos,
que me deixam nua.
No silêncio do despertador,
acerto minha respiração com a tua
como quem dá corda no relógio da vida,
nesta primeira manhã de despedida...
me rouba o sono
e me vingo:
assopro no ouvido uma jura
que arrepia teu sonho bandido.
Abrem-se os olhos,
que me deixam nua.
No silêncio do despertador,
acerto minha respiração com a tua
como quem dá corda no relógio da vida,
nesta primeira manhã de despedida...
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Causa Mortis
Agora,
vou esconder minha tristeza,
para não ser egoísta,
e dar alegria, na mesa do bar,
p'ros meus amigos tristes...
Na rua,
tapo meus ouvidos com música,
só
para calar essa dor
que me mói os ossos
pouco a pouco
e mais um tanto...
até ranger!
Mas em casa, não ligo a tevê,
e deixo enfim me abater,
meu desalento incurável...
Só para gostar de estar vivo,
nessa última noite sem fim.
vou esconder minha tristeza,
para não ser egoísta,
e dar alegria, na mesa do bar,
p'ros meus amigos tristes...
Na rua,
tapo meus ouvidos com música,
só
para calar essa dor
que me mói os ossos
pouco a pouco
e mais um tanto...
até ranger!
Mas em casa, não ligo a tevê,
e deixo enfim me abater,
meu desalento incurável...
Só para gostar de estar vivo,
nessa última noite sem fim.
sábado, 4 de agosto de 2007
longe assim: . . .
Você reparte-nos...
Vai
embora.
(para longe assim:>>>>>>>>. . .)
E seus passos vão
>>>>>>>>>>>>caindo
>>>>na calçada
>>>>>>>>>>>>como folhas
>>>>de um outono
>>>>>>>>>>>>severo . . .
Minhas mãos de adeus voam . . .
Como pássaros migratórios,
Vou seguir seus rastros vãos;
essas memórias caídas,
feito migalhas de pão.
>>sei que você
>>>>>>>>>>vai e
>>>>>>>>>>>>volta,
>>>>>>>>>>>>vai
>>>>>>>>>> voar
>>>>>>>>o vôo
>>>>em vão . . .
Pousa, no precipício do mundo,
onde mil olhares deságuam
feito reticências,
num poema triste . . .
Marcadores:
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mãos,
olhos,
reticências,
tristeza
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Vestígios
Rabisco idéias em mil fragmentos
de papel, junto agulha, linha e borracha
pra cozer uma estranha colcha de retalhos...
Cubro-me dessas teorias entrelaçadas,
(frutos do ócio, do tédio, das coisas que andei usando)
e durmo. Sonho com meu livro de fogo e sombras,
acordo-me em cinzas
de mim, sobram apenas
vestígios de um livro fantástico.
Sou esses textos mutilados.
Mas
passou por mim um Poema pronto (com trilha sonora e tudo)
e não parou...
Meu pulso, sim.
(ou melhor, quase).
E você desaparece,
(enquanto ainda decido se corro atrás ou faço Psiu!)
minhas horas se consomem em sua espera,
no ônibus, na UFF, no corredor, na praça,
na rua, no prédio, naquela festa, na van...
__ Passa aqui quando voltar de sei lá.
Meu Poema desconhecido,
vai por aí, desenhando palavras aladas,
com seus passos que transbordam dorremis.
de papel, junto agulha, linha e borracha
pra cozer uma estranha colcha de retalhos...
Cubro-me dessas teorias entrelaçadas,
(frutos do ócio, do tédio, das coisas que andei usando)
e durmo. Sonho com meu livro de fogo e sombras,
acordo-me em cinzas
de mim, sobram apenas
vestígios de um livro fantástico.
Sou esses textos mutilados.
Mas
passou por mim um Poema pronto (com trilha sonora e tudo)
e não parou...
Meu pulso, sim.
(ou melhor, quase).
E você desaparece,
(enquanto ainda decido se corro atrás ou faço Psiu!)
minhas horas se consomem em sua espera,
no ônibus, na UFF, no corredor, na praça,
na rua, no prédio, naquela festa, na van...
__ Passa aqui quando voltar de sei lá.
Meu Poema desconhecido,
vai por aí, desenhando palavras aladas,
com seus passos que transbordam dorremis.
domingo, 29 de julho de 2007
Turista
“Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha,
queria que eu tocasse castanhola
e pegasse o touro à unha”
Alberto Ribeiro / Braguinha
_ samba comigo?
não sei o samba,
não sou daqui.
você pode me ensinar?
_ claro! porém eu não sei. semana que vem, talvez.
mas vou embora amanhã,
minhas férias acabaram,
estou aqui há quase um mês,
só temos essa noite...
(....)
já são meio dia,
definitivamente, preciso ir.
sinto falta da minha casa
de barcelona,
de ver gaudí.
mas roendoasunhasmente, quero ficar
(nesse meu novo lugar).
já não sei desatar os nós
que construímos nessa última noite,
como desfazer-nos?
e partir...,
você ainda dorme...
sem querer acordar, lhe chamei,
disse tchau, fica com deus.
e vôo,
às 16h, no galeão.
enquanto isso,
meu guapo,
você sonha mais
e mais...
o seu sono fabuloso.
(....)
ainda não sabe que estou fora.
em outra cidade,
sinto saudade...
na catalunha,
quero quem me arranque a pele à unha,
que me desfaça de ti,
que me dê outras dores pra sentir.
(sem ti?)
faz um ano,
e já estou fazendo check-in.
será que você acordou?
será que pensou em desistir?
ainda tenho a chave do apartamento em icaraí.
se não me quiser, vou ficar fula
e chorar ali, na rua,
em frente à pedra do itapuca.
chego cedo, o caos aéreo acabou,
de manhã, sua casa ainda faz o silêncio da despedida,
você comprou o sofá!,
mas na cozinha ainda tem aquela louça pra lavar,
que bom!,
esse lugar ainda é familiar.
abro a porta do quarto,
como quem abre um velho diário,
pra gente continuar o nosso beijo
e aquilo que faltou
(como antes do vôo)
naquele samba que parou.
queria que eu tocasse castanhola
e pegasse o touro à unha”
Alberto Ribeiro / Braguinha
_ samba comigo?
não sei o samba,
não sou daqui.
você pode me ensinar?
_ claro! porém eu não sei. semana que vem, talvez.
mas vou embora amanhã,
minhas férias acabaram,
estou aqui há quase um mês,
só temos essa noite...
(....)
já são meio dia,
definitivamente, preciso ir.
sinto falta da minha casa
de barcelona,
de ver gaudí.
mas roendoasunhasmente, quero ficar
(nesse meu novo lugar).
já não sei desatar os nós
que construímos nessa última noite,
como desfazer-nos?
e partir...,
você ainda dorme...
sem querer acordar, lhe chamei,
disse tchau, fica com deus.
e vôo,
às 16h, no galeão.
enquanto isso,
meu guapo,
você sonha mais
e mais...
o seu sono fabuloso.
(....)
ainda não sabe que estou fora.
em outra cidade,
sinto saudade...
na catalunha,
quero quem me arranque a pele à unha,
que me desfaça de ti,
que me dê outras dores pra sentir.
(sem ti?)
faz um ano,
e já estou fazendo check-in.
será que você acordou?
será que pensou em desistir?
ainda tenho a chave do apartamento em icaraí.
se não me quiser, vou ficar fula
e chorar ali, na rua,
em frente à pedra do itapuca.
chego cedo, o caos aéreo acabou,
de manhã, sua casa ainda faz o silêncio da despedida,
você comprou o sofá!,
mas na cozinha ainda tem aquela louça pra lavar,
que bom!,
esse lugar ainda é familiar.
abro a porta do quarto,
como quem abre um velho diário,
pra gente continuar o nosso beijo
e aquilo que faltou
(como antes do vôo)
naquele samba que parou.
domingo, 22 de julho de 2007
Fim,
Somos, estranhamente, pontuados nessa biografia,
cheios de vírgulas,
espantos!,
dúvidas,
(ou estou errado?)
e a cada capítulo que não se encerra…
Reticências,
ou, de repente,
um falso
ponto final
.
cheios de vírgulas,
espantos!,
dúvidas,
(ou estou errado?)
e a cada capítulo que não se encerra…
Reticências,
ou, de repente,
um falso
ponto final
.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
desencontro
A morte, me parece, é uma viajante apressada,
chega já, sem adeus e parte esquecendo-se de si.
chega já, sem adeus e parte esquecendo-se de si.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Monotonia
Quero fazer coisas monótonas contigo
e desenterrar belas idéias mortas...
Compartilhar a cama, uma jura,
Pagar o pão,
comprar O Dia.
Perder-me em ti, confundir
fome, amor, desejo, frio, saudade...
um vento, um cheiro, uma idéia,
fugir dos sentidos na sua cidade.
Às vezes, ficar só,
outras, a sós.
Mas quero sempre morar a nós.
Viver o cada dia do nós
tornando-nos sós,
mesmo sabendo, enfim, que
somos feitos da mesma matéria dos sonhos...
e desenterrar belas idéias mortas...
Compartilhar a cama, uma jura,
Pagar o pão,
comprar O Dia.
Perder-me em ti, confundir
fome, amor, desejo, frio, saudade...
um vento, um cheiro, uma idéia,
fugir dos sentidos na sua cidade.
Às vezes, ficar só,
outras, a sós.
Mas quero sempre morar a nós.
Viver o cada dia do nós
tornando-nos sós,
mesmo sabendo, enfim, que
somos feitos da mesma matéria dos sonhos...
segunda-feira, 16 de julho de 2007
os sons sonsos só sons só sonsos sons os sonsos sons só sons sonsos sós
seu sou eu só ou seu sou só eu ou só seu sou só ou eu sou só seu ou só eu sou seu ou só sou seu eu ou só sou só?
ou
seu
sou
eu
só
ou
seu
sou
só
eu
ou
só
seu
sou
só
ou
eu
sou
só
seu
ou
só
eu
sou
seu
ou
só
sou
seu
eu
ou
só
sou
só?
ou
seu
sou
eu
só
ou
seu
sou
só
eu
ou
só
seu
sou
só
ou
eu
sou
só
seu
ou
só
eu
sou
seu
ou
só
sou
seu
eu
ou
só
sou
só?
sábado, 14 de julho de 2007
Parto Morto
S
E
S
Perdi o sentido das palavras.
Cada letrinha perdeu o sentido em mim.
Um parto,
você vai partir
e eu, me repartir.
Tentei me lembrar de ter vivido isso antes.
Mas não.
Já não me recordava sequer de me sentir vivo.
Meus olhos, então, se perdem
nas entrelinhas,
nas linhas desviadas,
nas portas entreabertas,
nas palavras escritas entre pernas
me perdi, minha.
Somos um desencontro,
o silêncio suspenso no suspiro negado...
Assim
fico calado
e triste
feito o silêncio após o parto,
que anuncia o feto morto.
A________________________________U
D
A
D
E
S
Perdi o sentido das palavras.
Cada letrinha perdeu o sentido em mim.
Um parto,
você vai partir
e eu, me repartir.
Tentei me lembrar de ter vivido isso antes.
Mas não.
Já não me recordava sequer de me sentir vivo.
Meus olhos, então, se perdem
nas entrelinhas,
nas linhas desviadas,
nas portas entreabertas,
nas palavras escritas entre pernas
me perdi, minha.
Somos um desencontro,
o silêncio suspenso no suspiro negado...
Assim
fico calado
e triste
feito o silêncio após o parto,
que anuncia o feto morto.
Marcadores:
desencontros,
entrelinhas,
feto,
morte,
saudade,
silêncio,
tristeza
sexta-feira, 13 de julho de 2007
dicionário
.sucinto.
conciso,
breve,
brisa,
curto,
compresso,
comprimido,
espaço,
parêntese,
sintético,
síntese,
veloz,
rápido,
econômico,
susto,
suspiro,
piscada,
queda,
vida,
chama,
ira,
amor,
memória,
nota,
bilhete,
baixo,
fino,
frágil,
eco,
volátil,
efêmero,
bola,
brigadeiro,
ponto,
vírgula,
vontade,
salto,
estar,
arrepio,
pulo,
paixão,
suicídio,
conciso,
breve,
brisa,
curto,
compresso,
comprimido,
espaço,
parêntese,
sintético,
síntese,
veloz,
rápido,
econômico,
susto,
suspiro,
piscada,
queda,
vida,
chama,
ira,
amor,
memória,
nota,
bilhete,
baixo,
fino,
frágil,
eco,
volátil,
efêmero,
bola,
brigadeiro,
ponto,
vírgula,
vontade,
salto,
estar,
arrepio,
pulo,
paixão,
suicídio,
Casamento, lembranças e outras coisas fúteis
Construímos o tempo que passamos juntos,
nossas mãos podem tocar o acúmulo das coisas vividas e amontoadas.
Casamento é um namoro que se materializa
no sinteco arranhado,
no sofá tingido com macarrão alho e óleo ou
no lençol que vai desbotando noite a noite...
Na banguça dos primeiros dias na (nossa!) casa nova,
no orgulho de ver as coisas se ajeitando,
nos móveis que parcelamos,
na cartinha do SPC
- nós vamos construindo o nosso tempo –
nas mil lembranças do cotidiano,
que marcam eternamente as coisas fúteis.
nossas mãos podem tocar o acúmulo das coisas vividas e amontoadas.
Casamento é um namoro que se materializa
no sinteco arranhado,
no sofá tingido com macarrão alho e óleo ou
no lençol que vai desbotando noite a noite...
Na banguça dos primeiros dias na (nossa!) casa nova,
no orgulho de ver as coisas se ajeitando,
nos móveis que parcelamos,
na cartinha do SPC
- nós vamos construindo o nosso tempo –
nas mil lembranças do cotidiano,
que marcam eternamente as coisas fúteis.
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Palavras em 7 palmos medidas
Quando li sua carta,
desejei cada palavra sua,
que fosse eterna!
Não era, voava
com suas asas
as asas asas as as asas...
até baixar a sepultura de luto alcalino,
letra
a
l
e
t
r
a
s
vestiam o azul afiado, da minha escrita fina,
que espeta na folha essa coleção de palavras empalhadas.
Enfim,
Senti
enterrando-se em mim a saudade das palavras mortas...
desejei cada palavra sua,
que fosse eterna!
Não era, voava
com suas asas
as asas asas as as asas...
até baixar a sepultura de luto alcalino,
letra
a
l
e
t
r
a
s
vestiam o azul afiado, da minha escrita fina,
que espeta na folha essa coleção de palavras empalhadas.
Enfim,
Senti
enterrando-se em mim a saudade das palavras mortas...
Freud explica
Amar é sempre físico?
Sim, segundo Freud.
Sempre libido.
Amores têm aromas
de pele
entreaberta e úmida...
Sim, segundo Freud.
Sempre libido.
Amores têm aromas
de pele
entreaberta e úmida...
segunda-feira, 9 de julho de 2007
She's My Shoo Shoo
Gosto de fazer a minha comida
com as minhas próprias mãos e, depois,
comê-la,
gosto, também, das coisas que derretem na boca
(brigadeiro, sorvete, chocolate, pudim, mais chocolates, beijo, mais sorvetes, mais brigadeiros, mais beijos, mais, mais, mais!...)
e adoro pessoas que derretem no abraço,
gosto do abraço, porque é quando você pode estar em frente e em volta
ao mesmo tempo,
envolto.
Hmm...
Não sei que palavras usar.
Ah, já sei!
O abraço é quando as pessoas, enfim, se embrulham.
com as minhas próprias mãos e, depois,
comê-la,
gosto, também, das coisas que derretem na boca
(brigadeiro, sorvete, chocolate, pudim, mais chocolates, beijo, mais sorvetes, mais brigadeiros, mais beijos, mais, mais, mais!...)
e adoro pessoas que derretem no abraço,
gosto do abraço, porque é quando você pode estar em frente e em volta
ao mesmo tempo,
envolto.
Hmm...
Não sei que palavras usar.
Ah, já sei!
O abraço é quando as pessoas, enfim, se embrulham.
Desassossego
Desassossegada despedida
despedaça desejos.
Desvios
de
despedaça desejos.
Desvios
de
vidas:
Deixar
de
deitar,
desdá,
desfaz,
destrata,
desmama.
Desfruta
dessa dor
de
desamar.
Desdenha
de mim.
Desaba,
desabafa.
Desabitue-se
de amar.
Desabone-se
de doar-se.
Desabotoe-se
de pesares.
Descasa,
desacostume-se,
desafogue-se
desse afeto.
Descendência,
desdita.
Desculpe desaforos.
Desnevoe
desnecessários
desperdícios
de
desopilos.
Despiste despenhadeiros,
despose-me de novo,
desvirgine,
desmoçe,
destoe,
desonre.
Desvire de avesso
desvelos desvairados.
Desvende
desvãos de mim.
Desvencilhe
destemperos.
Desterre déspotas,
despeitos.
Desove
despautérios.
‘Despelar?’
‘Despodir?’
_ Desatinos!
Desquedelhe-se
desgostoso de si.
descambe, desaprumado, desatento,
desajuizado, destrambelhado, desarrazoado!
desagrave, desamuame-me!
desabroche.
Desnudo e
desnutrido
desenhe descaminhos deslumbrantes
deslize e
destile-se
dentro de mim.
Desminta o
desamor,
desmiolado!
Deixar
de
deitar,
desdá,
desfaz,
destrata,
desmama.
Desfruta
dessa dor
de
desamar.
Desdenha
de mim.
Desaba,
desabafa.
Desabitue-se
de amar.
Desabone-se
de doar-se.
Desabotoe-se
de pesares.
Descasa,
desacostume-se,
desafogue-se
desse afeto.
Descendência,
desdita.
Desculpe desaforos.
Desnevoe
desnecessários
desperdícios
de
desopilos.
Despiste despenhadeiros,
despose-me de novo,
desvirgine,
desmoçe,
destoe,
desonre.
Desvire de avesso
desvelos desvairados.
Desvende
desvãos de mim.
Desvencilhe
destemperos.
Desterre déspotas,
despeitos.
Desove
despautérios.
‘Despelar?’
‘Despodir?’
_ Desatinos!
Desquedelhe-se
desgostoso de si.
descambe, desaprumado, desatento,
desajuizado, destrambelhado, desarrazoado!
desagrave, desamuame-me!
desabroche.
Desnudo e
desnutrido
desenhe descaminhos deslumbrantes
deslize e
destile-se
dentro de mim.
Desminta o
desamor,
desmiolado!
domingo, 8 de julho de 2007
DDD
Tu tu tu,
Tu tu tu,
Tu tu tu,
Deu desligado,
Deu ocupado,
Deu em nada,
Deus meu!
Deu de novo, só
Desdém.
Dei pití,
Dei azar,
Dei de ombros,
Deixei para lá.
Tu tu tu,
Tu tu tu,
Deu desligado,
Deu ocupado,
Deu em nada,
Deus meu!
Deu de novo, só
Desdém.
Dei pití,
Dei azar,
Dei de ombros,
Deixei para lá.
sábado, 7 de julho de 2007
p_a___r_____t________i___________r
.
-se..
Não me lembro de me sentir tão em paz.
A agitação das crianças não me incomoda nem um pouco e,
ainda, me tira meios sorrisos disfarçados a cada dez minutos.
Percebo a vaga sensação de medo - o medo ancestral de se afastar aos poucos e,
finalmente, partir - típico dos navegadores do mundo.
Estou sentada na poltrona de veludo azul do canto,
ao lado dos meus livros, lugar que escolhi para ler,
mas que acabou vencido pela cama.
O vem e vai das crianças contrasta com minha pouca energia,
observo sem inveja, olho a minha mão a folhear o livro e
constato o tic tac corrosivo dos anos que passei aqui, lembro:
A esperança é um dever – ou seria um de vir?
Minha memória me trai.
Troco as pernas, descruzo-as para acordá-las,
me rio da minha condição absurda.
Vestido largo, corpo que não me pertence.
Viro as páginas do seu livro que só meus dedos lêem.
Fito cega.
A mente me distrai e me senta no meio deles, no chão com o joystiIck nas mãos.
O passado ressurge, rolo de rir quando perco outra vez.
Jogam-se em cima de mim e gritam, gritam quando ganho.
Grito também.
Aperto os olhos com força.
Ecos de uma velha canção que fala da felicidade que nunca mais tornarei a ter.
Não me lembro de quando a solidão veio me acompanhar.
Meus irmãos discutem cinema e política como sempre, eu me abstenho como nunca.
Sinto o cheiro do mar e me levanto, caminho sem pressa até a varanda.
A solidão vem comigo.
Meu cunhado, com sensibilidade, percebe meu olhar e aponta um veleiro branco e distante.
Não quero o binóculo, obrigada. Prefiro assim, sem foco, sem detalhes.
Volta e meia alguém senta pertinho de mim,
fica a me velar.
Finjo que ouço, mas já parti, navego por portos desconhecidos.
Aliás, sou a donzela,
espero um herói coberto de sangue de piratas,
que vem no seu veleiro branco.
Meu espírito de bruxa dança invisível ao lado do meu corpo podre,
embalado pelos gritos.
Hipnotizada pela orgia oceânica, sinto a névoa sinistra e perfumada do vitorioso.
Na varanda, ilhada de vozes,
flutuo como espuma no quebra mar, alma da vida,
acordo para a eternidade singular nos braços dele,
girando.
A nitidez como que vejo, me cega para o que há aqui...
Um beijo na face me desperta com sorrisos.
Troco imediatamente todos os anos de sonhos por aquele
mããããããããeee! Sonoro
que parece não precisar de fôlego.
Sinto saudades nos braços que me abraçam,
nas pernas que lhe sustentam em meu colo.
Ah, que cansaço insuportável!
Ganho um pedaço de bolo na boca, suponho o último.
Como bem devagar - memorizando, dividido em pedacinhos,
oferecidos na boca com papéis divertidamente invertidos.
Ele sorri, como se soubesse o que estou a pensar.
E penso em conceitos, princípios, caráter...
Marcas que devo ter deixado em meus filhos...
Mas o que realmente espero é que tenham comigo
aprendido a sonhar.
Sua Anna.
a sós, há sons...
Tic tac, ti ti ti, trim...
Depois de um dia manchado de ruídos,
entre o vrum vrum vrum dos carros
e os blá blá blás das pessoas murmurosas,
só quero chegar em casa...
Quieto.
Entrar no escuro.
Ouvir o novo disco do Chico,
o nosso poeta do som,
e entender de que é feito o silêncio.
Assim, sozinho pensar:
__ Enfim, sons.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Entrelinhas
Li desesperadamente seu livro
Entrelinhas,
somos o acaso,
o desviar dos olhares,
o desaperto do abraço,
o último beijo de adeus...
Só mais um minuto,
não vá não. (Ainda não...)
Menina, me negue
minha nos meus olhos.
Retalhos de nós
vão cantando os últimos segundos a sós...
Do seu corpo sai um hino triste,
que me nina os olhos cheios de manhãs...
Entrelinhas,
somos o acaso,
o desviar dos olhares,
o desaperto do abraço,
o último beijo de adeus...
Só mais um minuto,
não vá não. (Ainda não...)
Menina, me negue
minha nos meus olhos.
Retalhos de nós
vão cantando os últimos segundos a sós...
Do seu corpo sai um hino triste,
que me nina os olhos cheios de manhãs...
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Conto de Me Ninar
Minhas personagens se encontram
em lugares distantes,
sempre e errantes.
São contadoras de histórias,
fazedoras de contos.
Fazem de conta
que chegou ao fim.
Sherezade, das Mil e Uma Noites,
não se daria conta
de contar
uma só noite sem fim.
São dessas que perdem a ponta
e o fio da meada,
quando, de quantas em quantas,
gozam um e outro e depois dizem sim.
Mas é o fim.
Acreditam nisso
feito duas tontas
e não se dão conta,
que são personagens
desse conto sem fim…
em lugares distantes,
sempre e errantes.
São contadoras de histórias,
fazedoras de contos.
Fazem de conta
que chegou ao fim.
Sherezade, das Mil e Uma Noites,
não se daria conta
de contar
uma só noite sem fim.
São dessas que perdem a ponta
e o fio da meada,
quando, de quantas em quantas,
gozam um e outro e depois dizem sim.
Mas é o fim.
Acreditam nisso
feito duas tontas
e não se dão conta,
que são personagens
desse conto sem fim…
terça-feira, 3 de julho de 2007
Escorpião de Jade
O cérebro é só massa cinzenta.
O coração é sangue.
É o sangue que corre o corpo todo
e conhece tudo
e se comunica com todos
e sabe de tudo,
recolhe tudo de todos,
e alimenta o cérebro parasita.
É o coração quem deve decidir.
O sangue sabe.
O cérebro só pensa.
[11/11/2002]
_________
Um personagem subterrâneo do Dostoiévski diz que a razão é limitada.
Ela só toca aquilo que conhece.
A emoção toca todas as coisas.
[18/10/2004 ]
__________
no Orkut:
Sorte de hoje:
"O coração é mais sábio do que a razão."
O coração é sangue.
É o sangue que corre o corpo todo
e conhece tudo
e se comunica com todos
e sabe de tudo,
recolhe tudo de todos,
e alimenta o cérebro parasita.
É o coração quem deve decidir.
O sangue sabe.
O cérebro só pensa.
[11/11/2002]
_________
Um personagem subterrâneo do Dostoiévski diz que a razão é limitada.
Ela só toca aquilo que conhece.
A emoção toca todas as coisas.
[18/10/2004 ]
__________
no Orkut:
Sorte de hoje:
"O coração é mais sábio do que a razão."
Antes do Amanhecer
Quando a conheci já estava na hora de começar a acreditar em alguma magia na Terra.
Ela me lembra o Antes do Amanhecer (um filme biográfico sobre meus sentimentos íntimos).
Porque nossas conversas são pontuadas pelo seu infinito caderninho de não-assuntos cabriolantes.
Só nesses momentos entendo o que a Julie Delpy fala no filme:
"Se existe algum tipo de mágica no mundo,
ela não está nas coisas,
mas nesse espaço que há entre nós, que nos liga,
nessa nossa capacidade de compartilhar..."
Ela é a mágica que tece do mundo absurdo uma bela colcha de retalhos onde posso pousar.
Queria que esse mundo fosse um lugar mais perto de você...
E quero de volta nossos silêncios,
nossas intermináveis conversas sem-assuntos.
Sinto sua falta todo dia,
de dançar Elis, no escuro,
Atrás da Porta,
antes de amanhecer,
entre o grupo de amigos que dormia
jogado nas almofadas,
feito orégano em pizzas.
Ela é aquele lugar entre o sonho e a madrugada,
onde as borboletas pousam nos ombros das almas tristes...
.
.
.
Ela me lembra o Antes do Amanhecer (um filme biográfico sobre meus sentimentos íntimos).
Porque nossas conversas são pontuadas pelo seu infinito caderninho de não-assuntos cabriolantes.
Só nesses momentos entendo o que a Julie Delpy fala no filme:
"Se existe algum tipo de mágica no mundo,
ela não está nas coisas,
mas nesse espaço que há entre nós, que nos liga,
nessa nossa capacidade de compartilhar..."
Ela é a mágica que tece do mundo absurdo uma bela colcha de retalhos onde posso pousar.
Queria que esse mundo fosse um lugar mais perto de você...
E quero de volta nossos silêncios,
nossas intermináveis conversas sem-assuntos.
Sinto sua falta todo dia,
de dançar Elis, no escuro,
Atrás da Porta,
antes de amanhecer,
entre o grupo de amigos que dormia
jogado nas almofadas,
feito orégano em pizzas.
Ela é aquele lugar entre o sonho e a madrugada,
onde as borboletas pousam nos ombros das almas tristes...
.
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“I Believe if there’s any kind of God, it wouldn’t be in any of us, not you or me, but just this little space in between. If there’s any kind of magic in this world, it must be in the attempt of understanding someone, sharing something. I know, it’s almost impossible to succeed, but who cares really? The answer must be in the attempt.”
Celine, personagem de Julie Delpy, no filme Antes do Amanhecer, de Richard Linklater.
Celine, personagem de Julie Delpy, no filme Antes do Amanhecer, de Richard Linklater.
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mágica
sábado, 30 de junho de 2007
.Waking Life.
Só os predestinados
podem dar o abraço
mais íntimo,
sufocante
e úmido
do que o beijo dos amantes.
[19/12/2005]
podem dar o abraço
mais íntimo,
sufocante
e úmido
do que o beijo dos amantes.
[19/12/2005]
quarta-feira, 27 de junho de 2007
Lu Morena
__ A palavra “Literalmente” tem caído em desuso, ou melhor em superuso, perdendo o sentido original.
__ É mesmo. Tive um professor que disse que uma lei tinha ficado, abre aspas: "li-te-ral-mente uma merda"! Mas eu duvido que a lei tenha, por milagre, virado cocô de verdade!
__ Usam pra falar “de verdade”. Ou quando querem dizer “em abundância”.
__ É verdade. Ou pior, literalmente!
__ Tipo “caiu o maior pé d’água... literalmente”.
__ Dá vontade de perguntar "e quanto a água calçava?"
__ Ou “levou pro ortopedista?”.
__ Tem gente que diz: “Tá chovendo canivete... literalmente”. Enfim...
__ Ah, mas “tá chovendo canivete” ninguém diz, ou diz? A idéia é exatamente de coisa absurda... A expressão não é "nem que chova canivete"? Como aquela: “nem que a vaca tussa!”
__ Então, erram em todos os sentidos!
(...)
__ Ai, ai, estou sentindo um vazio por dentro, deve ser fome de alguma coisa... Literalmente.
__ Comeria um boi inteiro? Literalmente.
__ Só se a vaca tossisse...
(...)
__ Vamos fazer um movimento a favor do uso de "metaforicamente"? Com sorte as pessoas desistem do literalmente e correm o risco de acertar mais.
__ Proponho outro termo, “literariamente”. Seria assim: está chovendo canivetes, literariamente.
__ É poético, eu gosto. De repente têm uns termos que perdem o sentido metafórico e ganham um sentido absurdo.
__ De repente, a gente faz um movimento para incluir na gramática a figura de linguagem do absurdo, aliás, figura muito popular.
__ É, mas se escreve Junto ou separado? De repente ou derrepente? Voto no primeiro.
__ De repente... Vamos analisar à luz da gramática normativa à brasileirinha. Sendo que REPENTE é a coisa e DE é a partícula e sendo "coisa" e "partícula" nomes genéricos que acabei de dar em substituição aos nomes reais das classes de palavras às quais elas pertencem. Podemos afirmar com certeza que nossas afirmações são cobertas de imprecisões, por tanto de repente é, sem sombra de dúvidas, separado, pois partícula e coisa sempre estão separadas, pois se ficassem juntas perderia o sentido existir uma classe de palavras chamada partícula. E tenho dito!
__ [risos] Eu prefiro você ao Bechara.
__ Eu também. Ele é muito careta e ultrapassado...
__ Sinto muito por ele, vamos fazer uma gramática com o seguinte nome: gramática para quem escreve.
__ Pensei que seria gramática de leigos.
__ Quem é leigo aqui?! Sinto muito se você não entendeu minha explicação.
__ "Sinto muito" é uma coisa que não diz nada, né? Sente muito o quê? Muito feliz? Muito arrependimento? Tudo junto? É uma espécie de coringa.
__ "Sinto muito" é uma coisa que não diz nada, né? Sente muito o quê? Muito feliz? Muito arrependimento? Tudo junto? É uma espécie de coringa.
__ “Sinto muito” tem contexto, logo não precisa de texto.
__ Mas pode ser dito em muitos contextos diferentes!
__ Geralmente o contexto de tristeza...
__ De tristeza porque se convencionou assim, mas não é o que o texto diz! Em inglês, sorry é de tristeza, de sorrow... Lá faz sentido "I'm so sorry".
__ Será que na origem tinha mais texto? Será que sinto muito é uma contração?
__ Deve ter perdido os complementos, que nem o "obrigado" que, pelo que ouvi dizer, antes era algo do tipo "sinto-me obrigado a retribuir o favor"…
__ Mui grato a quem cortou!
__ Pois é. Ninguém deveria se sentir à vontade de pedir nada pra outra pessoa, só pra não se sentir obrigado depois...
__ Por isso minha vó dizia: “não peça o que você não pode tomar”.
__ Quem toma não se sente obrigado a nada. Logo, o simples obrigado, salvou o mundo do toma lá da cá, no bom sentido e do eterno sinto muito isso, sinto muito aquilo... Sorry.
__ Mas talvez seja isso, estrangeirismo do inglês pro português.
__ É, pode ser. Se algum dia alguém me perguntar, vou dizer que é por isso mesmo!
__ Me ajuda, escreve um pedaço da música do Boby Marley para mim.
__ Qual? “Get up, stand up: stand up for your rights! Get up, stand up: don't give up the fight!” Essa?
__ Isso, só isso mesmo, "sinto-me muito obrigado a retribuir o favor".
__ Ótimo. Depois te obrigo a alguma coisa.
__Eu nunca diria "de nada", se as pessoas ainda quisessem se obrigar a alguma coisa!
__ Quem organiza a exibição do filme do Cine Icaraí, você?
__ Pode ser, mas é a ultima vez que faço isso. Chega de atos exibicionistas.
__ Ah, por quê?
__ Porque é chato fazer o mesmo ato de novo e sempre e do mesmo jeito e de novo...
__ "Ato contínuo", de repente, adquiriu todo um novo significado.
__ Mas não é “moto continuo”?
__ É, mas as expressões compartilham contextos. E mudam continuamente.
__ Tem uma mensagem dizendo que você queria compartilhar arquivo comigo!
__ Compartilhar?
__ Compatilhar é legal.
__ Ah, cliquei sem querer em alguma coisa aqui e apareceu uma janela dizendo isso, que eu queria compartilhar um arquivo. Como eu não queria compartilhar nada, fechei o trem.
__ Hunf. Que tolo que fui, acreditei no eme-ésse-ene!
__Tolinho... Mas compartilharia minha vida com você! (se o msn tivesse essa opção...)
__ Você cancelaria, eu sei. Até porque o arquivo é grande, demora, você cansaria.
__ Que isso? Com esses diálogos, uma vida é pouco pra compartilhar.
__ Nossos diálogos sempre foram bons textos. Lembra daquele filme, Xeque-mate, com os diálogos absurdos que nem os nossos? O filme da ataraxia!
__ Muito divertido, pena que tem gente no mundo sem senso de humor e não gostou do filme. Mas... ataraxia? Que foi? Anda lendo dicionário de polissílabos?
__ É, ataraxia: é o poder de não se preocupar.
__ Aliás, deveria existir um dicionário de polissílabos.
__ De repente existe. Seria um bom dicionário... Anyway, no filme o cara fala que tem ataraxia. Eu revi há uns meses e decorei a palavra.
__ Hum, isso beira a psicopatia. Patologia de Don’t Worry, Be Happy.
__ Na verdade, ataraxia é uma coisa bonita. É algo acima do nirvana (não a banda).
__ Interessante. Então o nirvana é um tipo de psicopatia voluntária?
__ Não é porque você está violento hoje que o budismo se tornou uma patologia!
“Ataraxia é um termo ligado às correntes filosóficas gregas do Ceticismo, Estoicismo e Epicurismo, o qual é sinônimo para: Paz e imperturbabilidade de espírito; Ausência de ansiedade; Tranquilidade e impassibilidade da alma; Felicidade derivada da virtude; A experiência do ótimo, a qual leva ao prazer natural, ético e estável. Segundo tais correntes, a ataraxia é possível de ser alcançada: Atendendo-se aos desejos naturais; Ignorando-se os desejos supérfluos; Eliminando-se as paixões; A ataraxia epicurista é basicamente o triunfo da razão do homem - geralmente a duras penas - sobre a irracionalidade do ambiente que o circunda. É um estado de espírito onde o homem deixa de temer o divino, a dor e principalmente, a morte.”
__ Ah, entendi, tipo: dicionário de polissílabos!
__Tipo: se livrar dos desejos e necessidades do corpo.
__ Tipo: o psicopata está fora então?
__ É. O psicopata deve ter uma paixão o movendo, então, acho que ele fica excluído dessa.
__ É interessante observar as fronteiras absurdas. Tipo o psicopata ser vizinho do Sidarta. Aliás, sobre o absurdo do mundo, você poderia ler mais Camus.
__ ‘Ler mais’... Ou não seria pelo menos “ler um pouco”? Uma vez que não li nada.
__ Eu acho que no fundo todos o lemos, principalmente quem estranha só um pouquinho qualquer coisa que acontece hoje em dia.
__ A gente inconscientemente compartilhar idéias não significar ler! Ler é bastante literal.
__ Aqui sim caberia um literalmente.
__ Sim. Ler é bastante literal. Literalmente.
__ Muito bom poder voltar a conversar com você, mas tenho que ir.
__ Que pena. Estou com saudades.
__ Acho que isso vai me desenferrujar a escrita, ela está emperrada que dói.
__ Ah, não está não, você sempre se confunde com a minha. A sua vai bem, obrigada.
__ No fundo, você é meu oleozinho singer.
__ Você é tão romântico! Vá lá. Eu vou ficar lendo Camus.
__ Literariamente.
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