Vi a dor e voei

 Havia um ninho de rolinha aqui em casa.

Acompanhei a chegada, o cuidado.

Em pouco tempo, o casal trouxe as palhas

e moldou, com paciência, o seu coração.


Ela ficou. Botou um ovo.

Durante o dia, ele guardava o ninho.

À noite, ela vinha e tomava o lugar.

Um revezamento silencioso, exato.


Eu precisava viajar

e perderia o nascimento.

Isso me entristeceu,

mesmo sabendo que ainda veria o filhote crescer.

De longe, eu os imaginava ali,

turnos de espera, calor dividido.

Depois pensei que talvez já estivesse nascendo

e eu não veria os primeiros dias.

Isso doía.


Quando voltei, era tardinha.

Ele estava no ninho.

Normalmente se incomodava

com a minha presença na varanda,

mas dessa vez não se moveu.

Estranhei.

Olhei o ninho e pensei

se eu tinha calculado mal,

se ainda não era o tempo.


À noite, ele continuava ali.

Ela não voltou.

Mas rolinhas, mesmo depois do nascimento,

dividem o cuidado.

Ela não apareceu.


Olhei o chão.

Então vi.

Um ovo quebrado.

Nem sequer havia se formado.


Lamentei.

Ele me olhou.

E naquele olhar havia algo que reconheci:

como se soubesse

que eu também via a dor.


Então voou.

Pousou no muro em frente à varanda

e me olhou de novo.

Estava magro.


Pensei que talvez tivesse ficado ali

desde o início,

guardando um ovo que não vingou,

esperando não o nascimento,

mas que eu percebesse a sua perda.

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