A Casa no Meio do Rio

Não atravesse a ponte quando a água clama,

o rio conhece o nome da tua chama.

Ele fala em memória, espelho e febre,

mas toda corrente promete o que não deve.


A Sombra aprende cedo a imitar cuidado:

veste saudade, chama isso de passado.

Mas o Self não corre — ele pesa o chão,

espera o tempo cumprir sua função.


Há uma casa erguida no meio do fluxo,

não é refúgio, é intervalo justo.

Ali não se grita, não se envia sinal,

ali o gesto é interno e ritual.


O cavalo dos sonhos já sabe parar,

casco suspenso antes de avançar.

Força sem freio vira repetição,

potência contida vira direção.


Não transforme dor em sentença moral,

nem desejo em mapa transcendental.

O inconsciente fala por imagem e atraso,

não por urgência, nem por braço.


Quando o Animus inflar tua razão,

querendo fechar tudo em conclusão,

lembra: sentido não nasce do fim,

nasce do espaço entre “não” e “sim”.


A ânima canta no tom da ausência,

mas maturar é ouvir sem obediência.

Nem toda voz interna é vocação:

algumas pedem contenção.


Segue, mas não age. Ama, mas não vai.

A psique integra quando o ego cai

num silêncio que não é negação,

mas chão fértil da transformação.


E um dia, sem aviso, sem epifania,

a imagem perde o centro, a carga esvazia.

Não por esquecimento, nem por perdão,

mas porque o Self fechou a equação.

Nenhum comentário: