O rio flui pra nascente enquanto uma lâmina solar sai pela janela e se derrama pelo quintal. Pássaros sombrios ganham cores espessas e flores comestíveis brotam nos ombros. Uma névoa quente e úmida encarna o útero, o silêncio pulsa o ritmo, meu corpo nasce do chão, com o fogo como cordão umbilical.
ela
Morada do Tempo
Abri a porta da geladeira e o tempo estava intacto.
O que era vivo se mantinha: o queijo em seu silêncio, o legume em sua cor, o frescor guardado como promessa que não se quebra.
O chão era espelho de luz mansa, e o cheiro da terra subia pelas frestas como hálito de quem cuida junto, mesmo sem estar.
Na janela, a horta crescia sem anseio da colheita. Nenhuma folha caía, porque o tempo se continha.
Depois
como quem mede o tempo:
não é hora.
Amanhã não o deixo cair.
É sustentar
como o rio que passa
sem pedir decisão.
O que vai não me carrega.
À sombra dela, me sento.
e hoje é paisagem.
Chão
A porta aberta não é liberdade.
E ficar, não é prisão…
Eu vou pela janela onde o mundo passa.
Caminho com quem não anda ao meu lado.
Não chamo, não afasto…
Sigo meu próprio passo.
Casa das Sombras
Eu passava por essa rua todos os dias.
Era um antigo caminho de casa.
Aqui, onde hoje estão esses prédios, tinha uma grande mangueira.
Às vezes eu paro nesse ponto e tento lembrar da sombra dela.
Era uma sombra pesada, larga, que escurecia a frente inteira da casa.
Também havia umas casas antigas, de parede grossa, daqueles tijolos maciços.
Tinham um aspecto meio abandonado, mas não estavam.
Ainda tinha gente morando ali.
Muitas plantas na varanda. Vasos grandes, antigos.
Eu tinha uns quinze, dezesseis anos.
Em noite de lua cheia, quando eu passava, parecia que tinha alguém sentado na varanda.
Aliás, só quando eu passava à meia-noite.
Era sempre nesse horário.
Eu passava e olhava.
Meio curioso…
Meio com medo de estar sendo encarado.
A figura não se mexia.
Não levantava.
Não acendia luz.
Era só aquela presença escura, sentada, olhando a rua.
Eu não acreditava em fantasma.
Ainda não acredito.
Mas aquilo ocupava a varanda.
Nos dias sem lua cheia, não dava pra ver nada.
A mangueira era grande demais.
A frente da casa ficava completamente sombria.
Nem dava pra distinguir os vasos direito.
Aquilo me intrigava.
Não porque eu acreditasse em alguma coisa.
Mas porque eu olhava.
Até que um dia estava ventando muito.
E o vento começou a mexer nas folhas, nos galhos, nos vasos.
E as sombras se desfizeram.
Eu vi.
Era só isso.
Uma combinação da sombra da árvore com a sombra dos vasos.
Num ângulo muito específico.
Daquele ponto da rua.
Naquele horário.
Com a lua cheia naquele lugar exato do céu.
Naquele dia senti o desencanto.
Porque quando a gente descobre, perde alguma coisa.
Mas então aconteceu outra coisa.
Depois disso, sempre que era noite de lua cheia, e eu sabia que ia passar ali naquele horário, eu olhava ainda mais.
E eu via claramente uma pessoa sentada na varanda.
E eu sabia, com a mesma clareza, que não era ninguém.
Eu sabia exatamente o que era.
E mesmo assim aquilo me encantava.
Talvez até mais.
Porque não era mais engano.
Era uma combinação precisa.
Um encontro raro entre sombra, árvore, vasos, lua… e olhar.
Depois a mangueira foi cortada.
Depois aquela casa deixou de existir.
Depois construíram um prédio no lugar.
Depois aquela rua deixou de ser caminho de casa.
Depois eu parei de passar por ali.
E trinta anos se passaram…
Hoje eu não sento naquela varanda.
Sento em outra.
Reparo nas árvores da frente da minha casa.
No barulho dos bichinhos.
No caminho que a formiga faz.
Eu sei quando uma flor está prestes a abrir.
Sei até quando uma folha cai.
Não serve para nada.
O encantamento é meu.
Eu me encanto com o mundo.
O mundo não me encanta.
E mesmo agora, tanto tempo depois, mesmo com o mistério desfeito, com a árvore cortada, com a casa destruída e um prédio no lugar, eu ainda me lembro daquela cena com muito carinho.
Dessa coisa de você estar vendo algo que sabe que não é,
e mesmo assim continuar olhando,
e mesmo assim continuar encantado.
Talvez eu sempre tenha sido assim.
Alguém que olha inutilmente para o mundo.
Círculo de Sal
Não era o rio que me afogava,
era a margem que se afastava.
Cada passo prometia chão,
mas este sempre cedia à pressão.
Havia fogo, calmo e denso,
mas o vento norte o torcia por dentro.
As mãos sabiam desenhar o espaço,
mas o gesto repetido caía em descompasso.
O abrigo tinha teto, água e pilar,
mas nunca se deixava habitar.
O tempo ia e vinha, sem avançar,
girando no ponto que fingia passar.
Então, parei.
Salguei o chão
fazendo um círculo
com entonação…
A Casa no Meio do Rio
Não atravesse a ponte quando a água clama,
o rio conhece o nome da tua chama.
Ele fala em memória, espelho e febre,
mas toda corrente promete o que não deve.
A Sombra aprende cedo a imitar cuidado:
veste saudade, chama isso de passado.
Mas o Self não corre — ele pesa o chão,
espera o tempo cumprir sua função.
Há uma casa erguida no meio do fluxo,
não é refúgio, é intervalo justo.
Ali não se grita, não se envia sinal,
ali o gesto é interno e ritual.
O cavalo dos sonhos já sabe parar,
casco suspenso antes de avançar.
Força sem freio vira repetição,
potência contida vira direção.
Não transforme dor em sentença moral,
nem desejo em mapa transcendental.
O inconsciente fala por imagem e atraso,
não por urgência, nem por braço.
Quando o Animus inflar tua razão,
querendo fechar tudo em conclusão,
lembra: sentido não nasce do fim,
nasce do espaço entre “não” e “sim”.
A ânima canta no tom da ausência,
mas maturar é ouvir sem obediência.
Nem toda voz interna é vocação:
algumas pedem contenção.
Segue, mas não age. Ama, mas não vai.
A psique integra quando o ego cai
num silêncio que não é negação,
mas chão fértil da transformação.
E um dia, sem aviso, sem epifania,
a imagem perde o centro, a carga esvazia.
Não por esquecimento, nem por perdão,
mas porque o Self fechou a equação.