Eu passava por essa rua todos os dias.
Era um antigo caminho de casa.
Aqui, onde hoje estão esses prédios, tinha uma grande mangueira.
Às vezes eu paro nesse ponto e tento lembrar da sombra dela.
Era uma sombra pesada, larga, que escurecia a frente inteira da casa.
Também havia umas casas antigas, de parede grossa, daqueles tijolos maciços.
Tinham um aspecto meio abandonado, mas não estavam.
Ainda tinha gente morando ali.
Muitas plantas na varanda. Vasos grandes, antigos.
Eu tinha uns quinze, dezesseis anos.
Em noite de lua cheia, quando eu passava, parecia que tinha alguém sentado na varanda.
Aliás, só quando eu passava à meia-noite.
Era sempre nesse horário.
Eu passava e olhava.
Meio curioso…
Meio com medo de estar sendo encarado.
A figura não se mexia.
Não levantava.
Não acendia luz.
Era só aquela presença escura, sentada, olhando a rua.
Eu não acreditava em fantasma.
Ainda não acredito.
Mas aquilo ocupava a varanda.
Nos dias sem lua cheia, não dava pra ver nada.
A mangueira era grande demais.
A frente da casa ficava completamente sombria.
Nem dava pra distinguir os vasos direito.
Aquilo me intrigava.
Não porque eu acreditasse em alguma coisa.
Mas porque eu olhava.
Até que um dia estava ventando muito.
E o vento começou a mexer nas folhas, nos galhos, nos vasos.
E as sombras se desfizeram.
Eu vi.
Era só isso.
Uma combinação da sombra da árvore com a sombra dos vasos.
Num ângulo muito específico.
Daquele ponto da rua.
Naquele horário.
Com a lua cheia naquele lugar exato do céu.
Naquele dia senti o desencanto.
Porque quando a gente descobre, perde alguma coisa.
Mas então aconteceu outra coisa.
Depois disso, sempre que era noite de lua cheia, e eu sabia que ia passar ali naquele horário, eu olhava ainda mais.
E eu via claramente uma pessoa sentada na varanda.
E eu sabia, com a mesma clareza, que não era ninguém.
Eu sabia exatamente o que era.
E mesmo assim aquilo me encantava.
Talvez até mais.
Porque não era mais engano.
Era uma combinação precisa.
Um encontro raro entre sombra, árvore, vasos, lua… e olhar.
Depois a mangueira foi cortada.
Depois aquela casa deixou de existir.
Depois construíram um prédio no lugar.
Depois aquela rua deixou de ser caminho de casa.
Depois eu parei de passar por ali.
E trinta anos se passaram…
Hoje eu não sento naquela varanda.
Sento em outra.
Reparo nas árvores da frente da minha casa.
No barulho dos bichinhos.
No caminho que a formiga faz.
Eu sei quando uma flor está prestes a abrir.
Sei até quando uma folha cai.
Não serve para nada.
O encantamento é meu.
Eu me encanto com o mundo.
O mundo não me encanta.
E mesmo agora, tanto tempo depois, mesmo com o mistério desfeito, com a árvore cortada, com a casa destruída e um prédio no lugar, eu ainda me lembro daquela cena com muito carinho.
Dessa coisa de você estar vendo algo que sabe que não é,
e mesmo assim continuar olhando,
e mesmo assim continuar encantado.
Talvez eu sempre tenha sido assim.
Alguém que olha inutilmente para o mundo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário