A luz que guardava

 Vigília


Havia uma lâmpada acesa no corredor

do meu prédio quase vazio.

Ninguém lembrava quem a deixara ali.

A luz não anunciava chegada,

apenas permanecia.


Por dias, passou despercebida.

Subia e descia gente apressada,

olhos no chão, chaves na mão,

e a lâmpada seguia acesa,

como quem vela algo que não ocorreu.


À noite, o corredor era outro.

O silêncio fazia da luz um corpo.

Não iluminava um caminho,

guardava um intervalo.


Pensei que alguém tivesse esquecido

de apagá-la por descuido.

Depois entendi:

ninguém apaga uma vigília

enquanto ela ainda espera.


Fiquei ali alguns minutos, parado.

Não para resolver nada,

mas para reconhecer

que há presenças que não pedem utilidade,

apenas testemunho.


Quando me afastei,

a luz continuava acesa.

Não por mim.

Mas agora, eu sabia

o que ela guardava.

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